Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A desgraça de Bouhaddouz

Eu sei do que vocês vão falar. Todos vocês. Mas já se sabe: trata-se de um robô. Não é assim que vocês o chamam? Três gols numa estreia de Copa, um clássico ibérico… E, no entanto, parece só um dia a mais na vida de quem tem grandes chances de ganhar sua sexta Bola de Ouro. Podem tacar quantas pedras quiserem, mas aqui o drama é demasiadamente humano para uma máquina.

É fácil lidar com a glória, com os louros de ser o primeiro a anotar três gols no mesmo jogo na Copa da Rússia. É mole ter muito dinheiro e jogar num dos maiores clubes do mundo. Duro mesmo é ver o sonho de menino cair como bigorna, literalmente, sobre a sua cabeça. E foi isso o que aconteceu com Bouhaddouz.

Aos 31 anos, Aziz Bouhaddouz passa longe da fama de Cristiano Ronaldo, mas tem lugar no tão simpático quanto polêmico St. Pauli, da segunda divisão alemã. Os quatro gols marcados na última temporada ficam ainda mais modestos diante do único marcado em Copas do Mundo. Contra, de cabeça, nos acréscimos da partida desta sexta (15) contra o Irã. Ironicamente, o perfil do jogador no site da Fifa o descreve como um “perigo pelo alto, graças aos seus 1,88m”. Uma maldade, se olhada agora, em perspectiva.

Foi o final dramático para o primeiro jogo de Marrocos em uma Copa do Mundo em vinte anos. Em 1998, a seleção ficou no Grupo A, com Brasil, Noruega e Escócia. Os gols de Salaheddine Bassir e Moustafa Hadji não foram suficientes e o time caiu na primeira fase. Quem também caiu, em 1998, pela primeira vez, foi o mundo na cabeça de Bouhaddouz. E o drama, daquela vez, nada teve a ver com futebol. Aos 11 anos de idade, o garoto, que já vivia na Alemanha, ficou sem o pai.

Agora, vinte anos depois, o mundo cai de novo, mais leve, macio e redondo – é verdade – na cabeça do marroquino. Órfão desde os 13 anos, quando sua mãe também faleceu, o atacante que trilhou seu caminho pelo futebol alemão até chegar à Rússia é a primeira imagem de desgraça desta Copa do Mundo.