Cleiber Maia: A regra deve promover a busca pela eficácia

Antes de mais nada vamos entender a diferença entre eficácia e eficiência. A eficiência se caracteriza pelo uso de recursos de forma produtiva. A eficácia diz respeito ao alcance de um objetivo específico.

Na regra de campeonatos de Jiu-Jitsu na década de 80 os critérios subjetivos de combatividade determinavam a decisão em caso de empate e essa contagem era atribuída aos 3 bandeirinhas sem que o público ou os atletas tivessem acesso a essa informação.

Com o advento da criação da vantagem pela CBJJ na década de 90 o árbitro ganhou autoridade para decidir a luta empatada e começou a ter que sinalizar publicamente os momentos em que ocorria combatividade eficiente mas sem alcance do objetivo. Na prática, isso legitimou a estratégia competitiva baseada na produtividade sem objetividade, distanciando essencialmente o esporte da arte marcial.

A partir do momento em que regra do Jiu-Jitsu sinaliza que tentar e não conseguir é o suficiente para definir uma luta, o refinamento técnico deixou de ter tanta importância na competição esportiva.

A objetividade e a busca pela eficácia no Jiu-Jitsu passou a ser irrelevante, pois uma tentativa frustrada bastaria para alcançar a vitória segundo a então nova regra criada pela CBJJ.

Essencialmente o artista marcial deve buscar a eficácia, que é finalizar o conflito o mais tecnicamente possível, ou seja, com o mínimo de força.

A produtividade não é um fator crítico de sucesso numa guerra. Alcançar o objetivo com menos recursos possíveis é fundamental quando há uma vida em risco. Produzir por produzir sem objetividade é imprudente e até anti-ecológico, pois dá fim aos recursos que terão que ser utilizados em momentos críticos enquanto o objetivo não for alcançado.

Enquanto esporte, o Jiu-Jitsu promove a competitividade em larga escala e de forma acessível, sendo coerente a criação de objetivos menores e alternativos para dar dinamismo e segurança. No caso do Jiu-Jitsu foram estipuladas pontuações e restrições para que os combates pudessem ser definidos mais rapidamente e de forma segura, sem perder a objetividade.

A REGRA TAMBÉM DEFINE O DESENVOLVIMENTO DA ARTE MARCIAL

Como estamos falando de arte marcial, vamos entender o âmbito artístico da luta. A arte está expressa no uso da técnica de forma impactante. Lembrando que ser técnico não é o objetivo a ser alcançado na luta. A técnica serve apenas para que o lutador utilize o mínimo de energia possível em combate.

O uso da técnica dá coerência à estratégia competitiva do lutador, mas se ela não for impactante não será considerada arte nem contribuirá para o alcance do objetivo.

Seguindo essa lógica, não há sentido em supervalorizar a supremacia da força de um lutador em relação ao seu adversário, a ofensividade ineficaz ou as técnicas de ataque que não foram impactantes o suficiente para promover o alcance do objetivo.

Por outro lado, também não tem sentido tirar o mérito do atleta que utiliza suas técnicas de defesa eficientemente e consegue administrar a luta até que consiga alcançar seu objetivo.

Portanto o simples fato de ter atacado mais não determina o vencedor de uma guerra assim como não deve ser motivo para dar vitória a alguém numa disputa esportiva de Jiu-Jitsu.

A INTRODUÇÃO DO DESEMPATE EM PRORROGAÇÃO COM GOLDEN SCORE

No intuito de promover a justiça esportiva e preservar a essência da arte marcial Jiu-Jitsu, a SJJIF foi pioneira na adoção do golden score na prorrogação sem limite de tempo em caso de empate na regra esportiva.

O intuito foi dar oportunidade aos lutadores de alcançarem seus objetivos, não deixando ao encargo dos árbitros decidirem a luta subjetivamente, além de preservar a proposta original da arte marcial desenvolvida no Brasil e do esporte que foi idealizado no final da década de 60 no Rio de Janeiro com a fundação da Federação da Guanabara.

Ainda investigando a essência da arte marcial, que em outras palavras significa a arte da guerra, vale ressaltar a importância de saber se defender eficientemente e atacar de forma eficaz.
“Não adianta dar mais tiros se no final você perder a guerra.”

O Jiu-Jitsu foi desenvolvido para que o lutador com menos força tenha alguma chance de poder resolver conflitos, seja lá qual for a circunstância. Numa guerra é natural que a iniciativa seja de quem tem mais recursos bélicos, sendo assim a estratégia óbvia daquele menos privilegiado de força é se defender de forma combativa até que haja oportunidade de aplicar um golpe que lhe permita alcançar seu objetivo.

Trazendo essa lógica para a regra esportiva, não seria justo dar a vitória simplesmente para aquele que teve mais poder ofensivo, mas que não conseguiu ser eficaz no alcance do seu objetivo.

Por isso, a vantagem não é e nunca foi adotada pela SJJIF. Além disso, a SJJIF criou a prorrogação sem limite de tempo até que algum atleta alcance seu objetivo, que é pontuar ou finalizar.

Como a punição por falta de combatividade dá um ponto para o adversário, a luta pode terminar dessa forma, ou por desclassificação também.

FINALMENTE PODEMOS UTILIZAR O RECURSO DE VÍDEO

É inegável que a utilização de recursos tecnológicos tem sido útil na arbitragem dos esportes modernos promovendo a justiça imediata e contribuindo para a avaliação técnica dos árbitros.

Há mais de quatro anos a SJJIF tem tido sucesso ao permitir que, imediatamente ao término de uma disputa, seja apresentado vídeo completo sem edição da luta como recurso para questionamento de possível erro de arbitragem que tenha definido injustamente a luta a favor de um lutador. Nos casos de aceitação do recurso, a luta volta ao momento em que houve o erro de arbitragem dando oportunidade do perdedor reverter o resultado a seu favor.

ALTERAÇÕES DA REGRA DEVEM SER VOTADAS ANUALMENTE COM TRANSPARÊNCIA

É uma ilusão achar que uma regra esportiva possa ser perfeita, ela deve evoluir constantemente. As técnicas evoluem, a medicina esportiva também, as formas de comunicação devem ser aprimoradas, os recurso tecnológicos permitem uma organização esportiva cada vez mais dinâmica e novas soluções devem ser re-avaliadas depois de um tempo de aplicação.

No entanto, a comunidade do Jiu-Jitsu há praticamente uma década começou a aceitar propostas de novas entidades de administração para o desenvolvimento do esporte, mas infelizmente quanto maior era o poder ou o interesse financeiro dessas instituições, menos democrática era a gestão da regra e arbitragem.

Das entidades internacionais de administração esportiva de Jiu-Jitsu que existem apenas a SJJIF realiza democraticamente uma assembleia geral anual na semana do seu campeonato mundial na Califórnia. Lá são filmadas a prestação de contas da Federação, a votação de propostas de alteração da regra, a inclusão de novas federações nacionais e é cobrado relatório do que foi feito em prol do esporte pelos presidentes das federações nacionais e continentais.

Para legitimar esse processo, a SJJIF faz um resumo do que foi exposto na assembleia e o apresenta anualmente no Sport Accord a diretores do COI e também a orgãos e entidades que regulam e fomentam os esportes no mundo todo.