A vitória demora mas vem: A história de vida de Aroldinho

Momento de agradecimento: Aroldinho emocionando e com a certeza de sua filha o iluminando (Arquivo pessoal)

Ele é o típico jogador sonhador. E a palavra desistir não existe em seu dicionário. Aroldo da Silva Arruda, o Aroldinho, de 26 anos, nascido no Rio de Janeiro e com o sonho de ser jogador de futebol profissional, é o grande personagem dessa história.

Após passar por muitas peneiras de futebol, sua primeira oportunidade surgiu apenas aos 19 anos, ao tentar uma vaga no juniores do Ceres FC. Lá, o jogador que era improvisado como meio campo, sabia que sua função era ser atacante. E logo não se destacou.

– Isso aconteceu em 2012. Na época eu trabalhava como motoboy. Eu era muito inexperiente, aprendi muita coisa mas não consegui me destacar.  Até porque também joguei de meio campo e sempre fui atacante – disse.

E pra quem acha que ele desistiu, engana-se. Em 2016, recebeu uma proposta do presidente do Duquecaxiense para se profissionalizar no clube; porém, para ele, era muito difícil aceitar a proposta tendo em vista a distância.

Aroldinho em sua primeira oportunidade: juniores do Ceres FC (Arquivo pessoal)

AMOR DE FÃ

O atacante, que sempre foi muito fã dos cantores Seu Jorge e Diogo Nogueira, sentiu de perto a emoção de tê-los como incentivadores, ídolos e acima de tudo, amigos.  Como um legítimo jogador de futebol, Aroldo jogava suas peladas de fut7 e em um belo domingo, foi abrilhantado, marcando três gols. E como quem marca três tem direito a pedir música, o atacante não perdeu a oportunidade e escolheu a de seu grande ídolo: Seu Jorge. Através de uma rede social, Aroldinho enviou o vídeo para o cantor que prontamente lhe respondeu, levando o coração do atacante a mil.

– Eu sou muito fã e fiquei muito feliz quando ele me respondeu. Ele me disse que queria me ver jogar e perguntou o que eu estava precisando, mas, por timidez, eu disse que nada. Só que começamos a conversar e fui pegando intimidade. Ele até chegou me ajudar com dinheiro de passagem na oportunidade que eu tive no Duquecaxiense; mas a distância me atrapalhava bastante. Até hoje não nos conhecemos pessoalmente; estamos para marcar, mas a gente se fala – revelou.

Ao som de “Trabalhador,” de seu Jorge, que Aroldo seguia sua vida como assistente administrativo em uma empresa de impressoras. Alguns anos “E sem dinheiro vai dar um jeito, vai pro serviço. É compromisso, vai ter problema se ele faltar, salário é pouco não dá pra nada, desempregado também não dá, e desse jeito a vida segue sem melhorar”. Mas com a cabeça nos gramados. Um ano depois da ajuda de um ídolo, eis que surge o outro: Diogo Nogueira.

Nem só de sonho, Aroldinho poderia viver. Ainda como assistente administrativo, batalhava sempre em busca de sua maior realização (Arquivo pessoal)

Desde 2012, o atacante jogava a pelada do cantor. Cinco anos depois, decidiu tomar coragem e pediu ao sambista uma ajuda para entrar em um clube profissional. Domingo a tarde. Dia de que? Churrasco, cerveja e o bom futebol. Futebol esse que nunca o fez desistir de seu sonho.

– Em um belo domingo de junho, eu recebo uma mensagem do Diogo Nogueira para ir ao clube do Barra da Tijuca. Ele me contou que era amigo do presidente e que conversou com ele para que desse uma oportunidade pra mim.  No dia seguinte eu fui lá, conversei e me profissionalizei. Sem dúvidas, foi um dos dias mais felizes do mundo. Tenho certeza que minha filha me iluminou – revelou.

SUPERAÇÃO: A BENÇÃO DE SUA FILHA

Dois meses antes da proposta para se profissionalizar no futebol, Aroldinho havia perdido sua filha de apenas três meses por problemas no coração. O atleta acredita que se não fosse o futebol em sua vida, sua história teria tomado outro rumo. Para ele, sua filha é quem o ilumina e guia todos os dias de sua vida.

A EMOÇÃO EM VESTIR A CAMISA

Após surgir a oportunidade de entrar no Barra da Tijuca, o clube já estava disputando a sétima rodada do primeiro turno. Mas isso não o desanimou. Pelo contrário; lhe deu mais motivação para continuar mostrando seu trabalho.
Aos 25 anos, Aroldinho, mesmo no banco de reservas, já sentia a emoção de fazer parte do elenco de um time profissional. A estreia veio contra o Duque de Caxias: o atleta marcou um gol, mas estava impedido. Ainda não havia chegado sua hora, mas o jogador não desistia.

Aos 25 anos, Aroldinho realizava seu sonho: ser jogador de futebol em um clube profissional (Arquivo Pessoal)

O PRIMEIRO GOL E A OPORTUNIDADE NO FUTEBOL NORDESTINO

22 de julho de 2017:

– Eu não esqueço esse dia. Meu primeiro gol foi contra o Olaria e passou um filme na minha cabeça. Tenho certeza que minha filha, mais uma vez, estava me guiando. Na temporada com o Barra da Tijuca em 2017 o atacante marcou quatro gols.

Em 2018, após se destacar na equipe carioca, o atleta recebeu a proposta de disputar o Campeonato Potiguar, no clube do Santa Cruz-RN. E a superação dentro das quatro linhas o acompanhava.

– No começo não foi fácil. Eu entrava bem nos jogos, mas só entrava no segundo tempo. Conversei com meu empresário para saber o que estava faltando. Até falei com o treinador também e ele disse que não era nada. Na partida seguinte ele me colocou no segundo tempo, mas fiquei bastante em campo, foram 25 minutos e eu joguei bem.

O atacante entrou tão bem que foi o suficiente para o técnico dar outra oportunidade.

– No dia do jogo contra o América-RN, eu achei que fosse entrar. E entrei. Eu gosto de jogar mais pelo lado esquerdo. Quando o técnico me chamou, ele me perguntou se eu queria entrar pelo meu lado. Eu disse que não precisava. Até aí o jogo estava empatado em 1 a 1. Até eu entrar, a gente estava mandando muito bem no jogo. E entrei. Até que no último minuto, saí da linha de impedimento, dominei e deixei o lateral para trás, marcando o gol da vitória. Tirei a camisa, todo mundo saiu correndo; os jogadores, a comissão. Eu chorei muito, meu gol passou até no Fantástico. Foi um dia de muita emoção – revelou.

A felicidade do primeiro gol como jogador profissional com a camisa do Barra da Tijuca (Arquivo pessoal)

A VOLTA AO RIO DE JANEIRO

Em abril, o atacante voltou aos gramados cariocas para vestir, novamente, a camisa do Barra da Tijuca. O atacante foi o artilheiro do clube na série B1 do Campeonato Carioca. Seu contrato acaba no final de setembro de 2018, mas o jogador continua em busca da realização de seu sonho em algum clube do país. Afinal, Diogo Nogueira afirma em sua canção: A vitória demora mas vem.

“Guerreiro não foge a luta
Eu  sempre na disputa
Em prol de um amanhã melhor (bem melhor)
Pego firme na labuta
Malandro é quem escuta bom conselho
Pra não ficar na pior (na pior)
Eu vou compondo minha história
Guardo em minha memória
Quem sempre me fez o bem (fez o bem)
Aprendi pra ensinar o ensinamento
Que tudo na vida tem seu tempo, tem
A vitória demora mas vem” 
Diogo Nogueira – A vitória demora mas vem