Akinfeev pega dois, Rússia surpreende e elimina Espanha nos pênaltis

Akinfeev defendeu dois pênaltis e fez a festa russa em Moscou: donos da casa estão nas quartas (Foto: Getty Images)

De um lado, surpresa. Do outro, maldição. Com Akinfeev herói, a Rússia eliminou a Espanha, neste domingo (01), em Moscou. Após resistir por 120 minutos e manter o empate em 1 a 1 com bola rolando, os donos da casa levaram a melhor nos pênaltis por 4 a 3 e conquistaram uma vaga improvável nas quartas de final do Mundial. Terceiro campeão do mundo a ficar pelo caminho nesta Copa, a Espanha mantém uma escrita: nunca derrotou um anfitrião em edições de Copa do Mundo ou de Eurocopa.

Antes de a bola rolar, o cumprimento sorridente entre os técnicos Hierro e Cherchesov era o encontro de dois homens que apostaram alto por uma vaga nas quartas. Ou, como diria aquele “torcedor corneta”: foi o abraço de um Professor Pardal com outro. No lado espanhol, o ídolo Andres Iniesta foi deixado no banco para a entrada de Asensio. No time anfitrião, o artilheiro do time na Copa, Cheryshev, foi sacado da equipe para dar lugar a mais um defensor no ferrolho montado pelo técnico russo na tentativa de neutralizar o forte ataque ibérico.

Mas a resistência não durou mais que 11 minutos. Zhirkov fez falta em Nacho. Koke levantou na área e, mais preocupado com segurar Sergio Ramos do que aliviar o perigo, o experiente Ignashevich tocou a bola contra as próprias redes: 1 a 0 Espanha. O gol logo no começo não significou, no entanto, mudança na postura russa. E nem na espanhola. A Roja, que não tinha produzido nenhuma finalização antes de marcar, passou a valorizar ainda mais a posse de bola. E só. Assim, o duelo eliminatório entre a campeã de 2010 e os anfitriões de 2018 foi, em quase todo o primeiro tempo, de eficácia superior à média dos calmantes e soníferos disponíveis no mercado. A finalização perigosa de Golovin, aos 35, foi capaz de interromper a “ola” nas arquibancadas, chamando atenção da torcida para um lance no campo. Mas foi aos 40 minutos que os russos vieram abaixo no Luzhniki. Após cobrança de escanteio, a cabeçada dos donos da casa foi desviada pelo braço de Piqué. Pênalti que Dzyuba converteu, batendo forte e deslocando De Gea para deixar tudo igual, ao fim da primeira etapa, no futuro palco da decisão da Copa.

Com o empate restabelecido, o início espanhol no segundo tempo trouxe um pouco mais do que se esperava: um time mais agressivo no toque de bola, mais próximo da área adversária, pressionando os anfitriões. Mas ainda sem conseguir levar perigo ao gol de Akinfeev. Foi quando os treinadores resolveram dar ao povo o que ele queria ver: Cherchesov lançou mão de Cheryshev, na esperança que seu artilheiro somasse, ao menos, mais um na conta que já tinha três gols no Mundial; Hierro respondeu com a entrada de Iniesta, uma alternativa de drible e velocidade nas tabelas para tentar furar o bloqueio da Rússia.

Mas nada deu certo. As fortes linhas de marcação dos donos da casa não cederam. Os contragolpes russos também não foram efetivos. Cheryshev mal viu a bola. Hierro ainda tentou uma última cartada, com Aspas no lugar de Diego Costa, buscando mais movimentação no ataque. Aos 39, ele recebeu cruzamento e ajeitou de peito para Iniesta pegar de primeira, da entrada da área. Akinfeev fez grande defesa. Time frio, habilidoso e técnico, a Espanha apostou em uma última novidade para surpreender a zaga russa: o chuveirinho. Os desgastados defensores da Rússia, porém, deram conta de estender seu suplício físico e mental por mais 30 minutos.

E já no primeiro deles tiveram de trabalhar para impedir que Carvajal aproveitasse cruzamento de Alba. É que a Espanha tentava se aproveitar de seu melhor condicionamento físico, logo no início da prorrogação, para se colocar novamente  em vantagem. Para dar fôlego novo ao time, Stanislav Cherchesov fez, pela primeira vez em Copas, a quarta substituição – permitida aos técnicos em casos de prorrogação. Erokhin foi o pioneiro jogador a entrar em campo nessas condições. Com quase 100 minutos disputados, até o frio time espanhol sentiu o nervosismo bater, o que ficou explícito quando Aspas caiu sozinho na entrada da área e Asensio chocou-se contra o corpo do companheiro e também foi ao solo.

Isco chamava o jogo, tentando resolver sozinho os problemas que os outros 10 juntos não conseguiram durante 105 minutos. A força e juventude de Rodrigo Moreno foram o último recurso de Hierro, colocando o homem de área que faltava desde a saída de Diego Costa. Mas foi fora da área que ele mostrou a que veio. A finta de corpo girando sobre o marcador e  a pedalada para tirar do lance mais um defensor não negam o sangue brasileiro que corre nas veias do filho de Adalberto (ex-lateral do Flamengo). Na conclusão da jogada, o chute cruzado que faria o segundo gol da Espanha no primeiro lance do segundo tempo da prorrogação, entretanto, parou no goleiro Akinfeev.

O banco de reservas russo pedia que os torcedores, na impossibilidade de entrar também em campo, gritassem para apoiar os companheiros que seguiam em uma resistência digna das forças de Stalin na Segunda Guerra Mundial. A forte chuva que começou a cair do céu moscovita era o elemento que faltava para elevar ainda mais a carga dramática do confronto. Em uma falha na saída de bola adversária e em um escanteio, a Rússia fez, praticamente, seu último esforço para resolver o duelo com bola rolando. Rodrigo Moreno ainda chutou mais uma. Não deu. Com 100% de seus jogadores puxando as pontas dos pés a cada paralisação do jogo para reduzir os efeitos da cãibras, os russos cumpriram seu objetivo inicial: não perderam. E ainda tentariam a sorte nas cobranças da marca penal.

A experiência de quem já decidiu uma Copa pesou a favor de Iniesta, que abriu a disputa convertendo a sua. Com dificuldade, Smolov também passou por De Gea. Piqué deslocou Akinfeev e ainda acertou a trave para fazer 2 a 1. Autor do gol espanhol no jogo, Ignashevich assustou a todos com sua expressão e, mais ainda, com uma paradinha antes de mandar para a rede. E aí o herói entrou em cena. Dono de uma atuação discreta em 120 minutos, Koke bateu à meia altura e Akinfeev brilhou. A defesa deixava a Rússia com certa vantagem, que Golovin soltou a bomba para confirmar. Quarto a cobrar pela Espanha, Sergio Ramos esperou o goleiro cair para bater e empatar de novo a contagem. Artilheiro russo, Cheryshev não decepcionou: 4 a 3. Se Akinfeev pegasse, a Rússia passaria às quartas. E pegou! Mesmo sem acertar o canto, o experiente goleiro deixou a perna esquerda para fazer uma defesa incrível e empurrar a Rússia às quartas de final.

Terceira campeã mundial a cair, a Espanha confirma uma maldição: não consegue vencer quando enfrenta uma anfitriã, seja em Copas do Mundo, seja em edições da Eurocopa. Já a Rússia, que entrou para não perder, surpreendeu o planeta com a vaga. Heróis, os jogadores estenderam uma faixa no meio do campo em agradecimento à torcida: “Jogamos por vocês”. E, por eles, os russos entrarão de novo em campo, no próximo sábado (7), às 15 horas, contra o vencedor de Croácia e Dinamarca. Na cabeça, levarão o sonho de um país de, no mínimo, igualar sua melhor campanha, então soviética, em Copas: o quarto lugar em 1966. E, depois deste domingo, quem duvida?

Espanha 1 (3×4) 1 Rússia

Local: Estádio Luzhniki (Moscou – Rússia)

Árbitro: Bjorn Kuippers (Fifa/HOL).

Auxiliares: Sander Van Roekel (Fifa/HOL) e Erwin Zeinstra (Fifa/HOL).

Espanha: De Gea, Nacho (Carvajal), Piqué, Sergio Ramos e Jordi Alba; Busquets e Koke; Isco, David Silva e Asensio (Rodrigo Moreno); Diego Costa (Iago Aspas). Técnico: Fernando Hierro.

Rússia: Akinfeev, Mario Fernandes, Kutepov, Ignashevich, Kudriashov e Zhirkov (Granat); Zobnin, Samedov (Cheryshev) e Kuziaev (Erokhin); Golovin e Dzyuba (Smolov). Técnico: Stanislav Cherchesov.

Gols: Ignashevich – Rússia (Contra 11’/1º tempo); Dzyuba – Rússia (40’/1º tempo)

Pênaltis:

ESP – Iniesta, Piqué e Sergio Ramos converteram, Koke e Iago Aspas perderam.

RUS – Smolov, Ignashevich, Golovin e Cheryshev converteram.

Cartões Amarelos:  Piqué (Espanha); Kutepov, Zobnin (Rússia)

Cartões Vermelhos: Não houve.

Público: 78.011 pessoas.