Alexandre Araújo: Lembranças charmosas de um torcedor

Você compraria um álbum de figurinhas do Campeonato Carioca de 2018? Dizem que é o mais charmoso do país. Será que ao abrir os pacotinhos vou me deparar com aqueles cromos dourados? É….O torneio já foi mais badalado. Ganhar o Cariocão foi tão importante quanto ganhar um Brasileiro. Todo início de ano um suspense no ar. Quais seriam as grandes contratações para o início do torneio? A molecada se escondia atrás da capa rosa do Jornal dos Sports em busca de novidades.

   

 

 

 

 

As orelhas ficavam em estado de atenção quando os repórteres de rádio traziam as últimas dos clubes.  Os debates acalorados, as provocações entre jogadores, o Maraca lotado. Tinha até bate-papo na mesa do boteco para falar sobre o campeonato. Saúde!  Saudades dos jogos transmitidos pela Band, do “Tá lá um corpo estendido no chão”, das finais memoráveis, dos “Zicos” e “Cocadas”, da caravela de papelão e da barriga artilheira. Quem será o rei do Rio? Tínhamos rei, príncipe e bobo da corte. Havia alma carioca no ar, o espírito gozador em campo. Por onde andará esse charme que tanto encantou os torcedores? Se perdeu numa esquina escura, envelheceu sem dignidade e foi trocado por um gringo qualquer.

Meu camarada, quem é o culpado? Todo mundo tem sua parcela. Sabe aquela mulher que tinha um corpão, mas que com o tempo foi maltratada, não se cuidava, ficou toda enrugada e o marido largou? Essa mulher cobiçada era uma taça que todo homem queria colocar na estante. Mas ela foi sendo castigada, humilhada até que perdeu o interesse. O amadorismo e o romantismo foram substituídos pelo profissionalismo. Não estávamos preparados para tanta mudança. O mundo da bola girou. Ficamos presos na ampulheta do tempo. Os cartolas não cederam as mudanças e, quando finalmente as fizeram, deram um nó na cabeça do pobre torcedor. Regulamentos estapafúrdios, tentaram agradar muita gente para se perpetuarem no poder. Inchaço, calendário apertado, preços salgados, enxurrada de jogos, Maraca fechado, campos vazios, azar do torcedor. Hoje, os clubes tratam a competição como uma mulher qualquer. Tá encostada num canto do bar. Não recebe mais elogios, vive sendo maltratada, nunca mais ouviu um fiu-fiu. Já tentaram acabar com ela, mas há quem ainda respeite a sua memória, as doces lembranças que nos proporcionou. Vou vadiar por um campo qualquer. Sem aplausos nem galanteios, apenas sobrevivo, esperando um príncipe encantado que me acorde desse sono profundo. Assinado: um saudoso torcedor.