Alexandre Araújo no José Alvalade, casa do Sporting, em Lisboa | Arquivo Pessoal

Alexandre Araújo: nos relvados portugueses

Viajar para fora do Brasil é um exercício de aprendizagem. Descobrir novos sabores da gastronomia local, mergulhar nos hábitos do povo, aprender os comportamentos e costumes, dar um F5 na história aprendida nos colégios, e para quem ama futebol, vale a pena desbravar novos estádios e entender as rivalidades de cada região. Em cada país o jogo tem sua peculiaridade, evidentemente que a regra é a mesma em todos, mas há diferenças no modo de torcer, no comportamento dos frequentadores do estádio, na rotina da cidade em dia de grandes jogos.

Tive a chance de assistir a duas partidas, conhecer quatro estádios e dar um pulo num clube de menor expressão. É por aí que começo minha viagem pelos campos portugueses, ou melhor, pelos relvados. Relvado é gramado, gol é golo, torcedor vira adepto, as organizadas são chamadas de claque, o goleiro é o guarda-redes, os adeptos ficam sentados nas bancadas, e até o juiz ladrão ganha a alcunha (apelido em Portugal) de gatuno. Após atravessar a ponte 25 de Abril, que liga a capital Lisboa a Setúbal, demos de cara com o pequeno campo do Vitória de Setúbal, dono de um estádio acanhando. Não chegamos a entrar na relva, mas conseguimos bater uma foto com um jogador que embarcava no ônibus do time. Horas depois de pesquisar no site do clube, descobrimos que se tratava de Gonzalo Paciência, craque da equipe e que está despontando na seleção portuguesa. Aliás, nossos irmãos estão bastante confiantes em seu selecionado e a cara de Cristiano Ronaldo está estampada em todas as cidades. Fotos, cartazes, perfumes, cuecas e até um hotel batizado com nome de CR7 está erguido na região mais nobre da capital.

Nossa segunda visita foi no estádio do Benfica, o clube com o maior número de conquistas nacionais, mas que está atrás do rival do norte, o Porto, em número de títulos internacionais. O estádio é mais um dessas modernas arenas padronizadas. O tour é feito a cada 30 minutos e nos leva ao interior do Estádio da Luz, onde estão os símbolos do clube benfiquista: as águias. São três animais que vivem atrás de uma das balizas e que nos dias de jogos do Benfica fazem um voo antes da partida e pousam no centro do gramado. Havia apenas duas no gramado naquele dia. Uma delas estava exposta no interior da mega-store do clube, com os olhos tapados para não se assustar com o imenso movimento de turistas. Na entrada da Luz há uma estátua de Eusébio, um dos maiores ídolos da história do futebol luso. O curioso é que os mais jovens pouco sabem sobre o craque que faleceu em 2014. Na pequena cidade de São João da Madeira, assistia a um game-show da TV local, e uma das perguntas era justamente sobre o saudoso e habilidoso ídolo do Benfica. O participante relutou para responder à pergunta e recebeu uma ajuda camarada da apresentadora para retirar mais um prêmio naquela esdrúxula gincana. O Benfica foi destaque nos noticiários esportivos durante as semanas em que lá estive. O clube perdeu todos os jogos que disputou na fase de grupos da Liga dos Campeões, mas a pauta dos debates era a suspeita de corrupção do clube, envolvido em escândalos de arbitragem. Temos muitas coisas em comum com nossos patrícios.

Minha terceira parada em Lisboa marcou meu debut em jogos da Champions. O simpático José Alavade, casa do Sporting, considerado um clube da elite em Lisboa. O estádio é um pouco menor que o da Luz, mas a casa sportinguista tem um certo charme, desde a sua fachada verde, as cadeiras coloridas, a sua arquitetura, não lembram quase em nada as chamadas arenas, apesar da grandiosidade da cancha. A torcida do Sporting não é tão vibrante como as do Benfica ou do Porto, mas fez uma festa bonita antes da entrada dos clubes, embalada pela versão da clássica “My Way”, de Frank Sinatra. Uma das atrações nos jogos em Portugal são os animadores de torcida. Ao anunciar a escalação do time da casa, o locutor grita o primeiro nome e a torcida responde com o seu apelido, sobrenome em Portugal. A cada gol marcado pelo Sporting, ele convida a torcida a gritar o placar. Ele anuncia o nome da equipe e os adeptos respondem com o resultado parcial. O modo de torcer dos portugueses é divertido. Assim como os brasileiros, eles participam do jogo, ofendem o árbitro, aplaudem as jogadas mais bonitas e vaiam o anti-jogo. Apesar da arena ter sido reformada para a Euro de 2014, o Alvalade já tem algo de ultrapassado. Na área externa do estádio, onde se localizam as lanchonetes, antigas tvs de tela plana estão colocadas na entrada dos túneis que dão acesso as arquibancadas. Todas estavam desligadas. O campo do Benfica é mais moderno, há um enorme restaurante na altura das tribunas que dá vista para o campo. Em Portugal também há muita preocupação com a segurança nos jogos maiores. No jogo do Sporting, tive que despachar meu carregador de celular numa lixeira porque a entrada do objeto era proibida. Fiquei com certo receio de jogar na lata de lixo porque poderiam pensar que estava plantando uma bomba nos arredores do estádio. Os adversários são escoltados por um forte policiamento e só deixam o campo horas depois da saída dos torcedores da casa. Uma dica para quem for ao Alvalade: evite comer no interior do estádio. A comida é ruim e há uma série de lanchonetes na área externa. Vale a pena visitar as lojas dos clubes que são um show à parte.

Minha quarta parada foi no estádio do Braga, localizado ao norte de Portugal. O passeio custa cerca de seis euros, em torno de R$ 24, mas vale a pena porque a construção do Estádio Municipal da Cidade é uma obra da arquitetura moderna. O pitoresco campo bracarense foi construído numa pedreira e demorou cerca de três anos para ficar pronto. A construção lembra os anfiteatros romanos, já que essa região esteve sob o domínio dos imperadores. O Braga é um clube que se orgulha do seu crescimento no cenário europeu. Nos últimos anos, a equipe tem participado com frequência da Liga Europa e já chegou a decidir um título, perdendo para o Porto na final. A loja e o museu são bastante acanhados, mas o tour é bastante informativo e mostra bem as características desse estádio considerado um dos cinco mais curiosos do mundo.

Para fechar minha peregrinação pelos campos portugueses, assisti o grande clássico entre Porto e Benfica, no Estádio do Dragão, que serviu de inspiração para a construção do Engenhão. Arquibancadas lotadas, policiamento reforçado por seu um jogo de alto risco. Benfiquistas e portistas não se dão. Os moradores do Norte chamam os torcedores da capital de Mouros. Segundo os adeptos do dragão, depois da invasão árabe, os nortistas foram expulsando os muçulmanos até a África. E assim é dado o tratamento a quem torce para o time lisboeta. Os adeptos do Porto cantam durante toda a partida, ofendem sistematicamente a torcida do Benfica. Havia até uma faixa na torcida “Super Dragões” com os seguintes dizeres: “SLB time de corruptos, ladrões, assassinos e por aí vai”. Mas, apesar da grandeza dos dois clubes, há uma rivalidade interna ainda maior em Portugal. Braga e Guimarães, duas cidades vizinhas separadas pelas brigas entre as torcidas de seus times. Em vista ao castelo de Guimarães, berço de Portugal, fui recomendado a tirar o meu cachecol do Braga para não sofrer nenhum tipo de ataque na rua. Segui o conselho. Portugal e Brasil são parecidos em inúmeros aspectos, não poderia ser diferente. Cada uma construiu sua própria identidade e isso também pode ser visto nos campos. Os debates pós-jogos na TVs são acalorados e discussões intermináveis sobre os lances polêmicos. Herança maldita? Apesar das diferenças, o que os torcedores ou adeptos querem é comemorar o gol, ou melhor, o golo.

*Alexandre Araújo é jornalista, radialista e apresentador da Rádio Globo do Rio (98,1 Mhz), onde é um dos integrantes do Pop Bola