Alexandre Araújo: Tem mimimi no Bobobó?

André Mourão/AGIF - UOL ESPORTES

A Beija-Flor conquistou seu décimo quarto título do carnaval carioca com um enredo que mostrou as mazelas do país: violência, abandono, corrupção, descaso e críticas a uma série de setores da nossa cidade falida e abandonada. No desfile da “soberana” sobrou até para o futebol, retratado num campo de batalha entre as organizadas e cartolas interessados em levar vantagem nas negociatas da bola. Alguns entendidos de carnaval disseram que a escola atirou para todos os lados e que se perdeu na narrativa. No caos que vivemos não há ordem, tudo está interligado. O samba forte, de lamento, foi um grito de socorro para o carnaval. Viva o samba de Nilópolis, viva o samba da Tuiutí. Está extinta a escravidão? Foi um carnaval político, de protesto, do desenredo, partidário em certos momentos, mas foi o carnaval que deu voz aos excluídos. O dedo na ferida, as imagens que todos veem diariamente, mas não tem coragem de enxergar.

Fim da folia na Sapucaí. As escolas protestando contra os resultados, torcedores discutindo nas redes sociais, a polarização política no foco de calorosos debates entre amantes e leigos do carnaval. No país do samba e do futebol, a polêmica não pode faltar para esquentar as rodas de samba. Somos todos fantoches? A esquerda triunfou sobre a direita e deu seu recado? Somos todos brasileiros e estamos insatisfeitos com violência, abandono e corrupção. Somos filho de uma pátria cansada de apanhar, senhor! Não temos lados, estamos todos na mesma linha de tiro. Na bola, no campo e nos gabinetes dos cartolas, segue o jogo sujo de vaidades e de interesses, onde o torcedor é colocado de escanteio, marginalizado. Os atletas, em sua grande maioria, são escravos dos clubes, vivem em condições precárias e se submetem a situação desumanas. Não estou falando dos grandes clubes brasileiros, mas de muitos jogadores que sobrevivem como podem no país do futebol.

É falsa a ilusão que todos são Neymares…A maioria esmagadora se não vive em regime de escravidão, ainda sofre na mão de dirigentes-feitores, empresários-carrascos, vivendo sob pífias condições de vida nos alojamentos-senzalas. Na casa-grande, os donos das grandes terras disputam a sangrenta guerra pela terra. Não há irmandade, não há cooperação. É cada um por si e quem paga a conta, como sempre, é o torcedor. Os poderosos Flamengo e Botafogo sentaram para conversar e chegaram ao fim de uma longa batalha. Ficou decidido que o reino rubro-negro teria o direito de explorar as terras alvinegras pagando um bom imposto ao rival. Inimizades deixadas de lado em nome de um bom negócio. Mas, um funcionário resolveu debochar do inimigo. Com as mãos no rosto, simulando um choro compulsivo, destratou o rival. Foi o estopim para que as transações se encerrassem.

 

O Botafogo vestiu a carapuça e encerrou o assunto. “Vá procurar um canto qualquer”! Não estou defendendo nem o clube da Gávea, nem o de General Severiano. Faltou espírito carnavalesco ao fogão nesse período momesmo. A máscara da tragédia usada por Vinícius JR incomodou tanto que a relação entre os clubes estremeceu mais uma vez. O Botafogo fechou as portas da sua quadra para o folião. O urubu-rei foi barrado na concentração. Mas, se faltou respeito, segundo os alvinegros, ao Botafogo faltou a alma de uma Beija-Flor, de um mangueirense, de um folião que não se deixa levar por brincadeiras e provocações. Faz parte do carnaval criticar, expor as feridas, e do futebol aceitar as gozações. Assim como nos desfiles desse ano, teve gente que adorou a encenação da Beija-Flor, outros acharam fortes e desnecessárias, cruéis. No futebol, alvinegros fecharam a cara com a fantasia da ofensa. Em 85, no desfile da Caprichosos de Pilares, a escola trouxe para a avenida o enredo que falava de “Saudades”. Lembranças daquela seleção nacional, da gasolina barata, da poupança no colchão. O curioso é que havia um carro em formato de bolo que celebrava os 16 anos do Botafogo na fila. O cantor Agnaldo Timóteo ameaçou tacar fogo na alegoria assim que ela apontasse na avenida. “Bota, bota, botafogo nisso”, dizia a letra do samba, que brincou com a ameaça. Samba e carnaval continuam desfilando de braços dados, mas as vezes, fecham o punho para defender seus pavilhões. Perderam preciosos pontos em harmonia.