Charles “Blackout”, o campeão dos campeões

A edição 50 do Watch Out Combat Show, que aconteceu no último sábado (19), foi especial para o cearense Charles “Blackout”, lutador de 30 anos, que venceu a luta principal do evento e conquistou o cinturão dos moscas, em um luta histórica contra Mateus “Raposinha”, por decisão unânime.

Este foi o segundo cinturão conquistado por Charles no WOCS, antes o atleta da Fusion Fight foi detentor do cinturão na categoria dos galos, sendo assim o primeiro atleta a ser campeão em duas categorias no Watch Out Combat Show.

Nascido em Saco do Belém, distrito de Santa Quitéria, no Ceará, o atual campeão peso mosca do WOCS nunca teve vida fácil e desde cedo encarou de frente as dificuldades de uma infância pobre.

Após o pai biológico deixar a mãe de Charles com os filhos, cinco no total, e partir rumo a outro estado em busca de uma remuneração melhor, dona Francisca Ribeiro, mãe de Charles, conhecida como Lurde, se viu com uma única alternativa, encarar de frente essa situação delicada e manter os filhos unidos ao lado dela. Talvez essa seja a maior referência para Charles ser um cara tão persistente, mesmo com toda a dificuldade que a família enfrentou, dona Lurde sempre correu atrás de garantir o alimento para dentro de casa, muitas vezes era algo apenas para tapiar o estômago, mas que era valorizado pelos filhos devido ao esforço feito pela mãe.

– Minha infância foi bem difícil, nasci no interior de Santa Quitéria, em Saco do Belém, um distrito cearense com menos de três mil pessoas. Meus quatro irmãos e eu nunca passamos fome, minha mãe sempre dava um jeito de conseguir algo para comermos, mas era tudo com muita dificuldade. A gente acordava de manhã e comia farinha com sal, tinha dias que meus irmãos e eu só tomávamos um cafezinho antes de ir para escola, sem comer nada, mas sempre tinha o lanche do escola, lá esperávamos o almoço também para voltar pra casa com café da manhã e almoço garantidos. Em casa sempre tinha um arroz ou um feijão pra almoçar, era um ou outro, sem mistura, porém essas dificuldades nos deixaram mais unidos. Minha mãe sempre batalhou, lavava roupa para fora, trabalhava em plantio de algodão, encarava qualquer desafio para garantir pelo menos que pudéssemos ter algo para comer – conta.

Charles com os irmãos.

Apesar das dificuldades, dona Lurdes sempre fez questão de manter os filhos unidos e com todos os cuidados necessários, tudo era mais difícil pela ausência do pai, que passou 12 anos sem dar nenhuma notícia. Porém, neste período de ausência do pai biológico de Charles, dona Lurdes conheceu o homem que seria fundamental no desenvolvimento de Charles, José Ferreira da Costa, popularmente conhecido como Zé Costa, que assumiu dona Lurde com os cinco filhos e se tornou uma referência positiva para as crianças que ainda eram pequenas.

– Meu pai saiu dizendo que buscaria uma vida melhor pra gente, mas depois sumiu, foram 12 anos ausente. Felizmente minha mãe conheceu uma pessoa que assumiu ela e os cinco filhos, se chama Zé Costa, um cara muito trabalhador e honesto. Considero ele meu pai de verdade, presenciei muitas vezes ele saindo sem comer nada, tomando apenas um café, e assim seguia para o trabalho, carregando a responsabilidade de manter uma família. Todos os dias eu levava o almoço para ele, as vezes era feijão e rapadura. O Zé Costa foi guerreiro demais, tanto ele quanto minha mãe. Quando fiquei um pouco maior comecei a ajudar ele nos trabalhos de campo, fazíamos trabalho de capina, cortar madeira, quebrar pedras para fazer cal, tudo isso para ganhar 12 reais por dia – revela.

Charles com a mãe.

Aos 18 anos, buscando algo melhor para ele e a família, Charles se mudou para Fortaleza, onde trabalhou como ambulante vendendo tapioca.

Um tio, que já morava na cidade do Rio de Janeiro, convidou Charles para morar com ele. O jovem não pensou duas vezes, se mudou para a cidade maravilhosa em busca de um conforto financeiro.

Após ser demitido por justa causa de um restaurante que trabalhava, por uma briga dentro do restaurante com outro funcionário do estabelecimento, Charles passou a fazer bicos para se manter no Rio, porém desanimado com a escassez de trabalho chegou a caminhar com pessoas que só queriam levar ele para um caminho sem volta.

– Em Fortaleza eu vendia cerca de 5 mil tapiocas por dia, mas eu era apenas funcionário, o carrinho era do João “da Tapioca”. Quando meu tio me fez o convite para que eu me mudasse para o Rio, não pensei duas vezes, peguei minha coisas e segui viagem. Meu primeiro trabalho foi como vigia, me lembro que ganhava 400 reais por mês, fiquei nove meses lá. Depois disso eu trabalhei durante um ano de garçom, sai de lá e fui trabalhei de copeiro em uma adega, após me desentender com um cara que trabalhava comigo, a gente saiu no braço e fui demitido por justa causa. Quando sai de lá as coisas ficaram mais complicadas, não me firmava em emprego nenhum e vivia de bicos. Minha vida começou a ficar uma bagunça e passei a andar com pessoas de vida errada, inclusive recebi vários convites para trabalhar no tráfico, cheguei a experimentar algumas drogas nessa época. Quando percebi que poderia estar em um caminho sem volta, larguei tudo de uma vez, parei de andar com aquelas pessoas, abandonei todos os vícios e consegui um bom emprego. Vim para o Rio para ser uma pessoa de bem e esse pensamento foi o que me motivou a abandonar as coisas que me faziam mal – conta.

Charles passou a trabalhar em uma marmoraria, se mudou para casa de uma tia e foi nesse período que conheceu a Sara, com quem passou a morar junto após cinco meses e a confirmação da gravidez. O sogro de Charles cedeu um pequeno cômodo para os dois iniciarem a vida de casados, em poucos meses nasceria a pequena Stheffanny, porém como nada na vida de Charles era fácil, o desemprego voltou a assombrar a vida dele, além disso, o sogro passou a dificultar as coisas para o casal.

– Nesse novo período da minha vida eu conheci a Sara, após três meses ela me levou até sua casa para conhecer os pais dela, no início deu tudo certo, eles me adoraram. Após ela engravidar, a gente passou a morar junto em um pequeno cômodo cedido pelo pai. Infelizmente fiquei desempregado no pior momento possível, como tudo na minha vida é mais difícil, uma enchente bagunçou nossa casinha, e aliado a isso, o pai dela passou a implicar comigo. Ele trabalhava como carpinteiro, tinha bastante trabalho e mesmo eu insistindo para que me deixasse trabalhar ele, era inútil. O pior momento foi quando começamos a passar necessidade, fome mesmo, cheguei a presenciar os pais da minha esposa desfrutando de um banquete enquanto a filha deles, grávida da Stheffanny, passava necessidades comigo. Uma parte que nem gosto muito de lembrar foi no final da gravidez da Sara, no quintal tinha um pé de abacate e esse foi o nosso alimento, imagine uma pessoa comer abacate no café da manhã, almoço e jantar? foi exatamente isso que aconteceu! Inclusive a gente não teve dinheiro para fazer o pré-natal, algumas amigas dela que faziam vaquinha para nos ajudar com o pré-natal – desabafa.

Conhecido por ser pronto para qualquer desafio, Charles passou a vender churrasquinho e assim as coisas foram melhorando aos poucos, e assim começou a comprar as coisas para dentro de casa. A separação veio pouco mais de um ano após o nascimento da pequena Sthefanny.

Nesse período Charles passou a trabalhar de carteira assinada, na Churrascaria tempero carioca, essa mudança foi fundamental para uma virada na vida de Charles. A partir dai duas pessoas passariam a fazer parte da vida dele, Flavia, atual esposa, e Airton Nogoceke, responsável direto pela inserção de Charles nas artes marciais, fato que mudaria sua vida por completo.

– O Airton dava aula na academia próxima ao restaurante que eu trabalhava, aos poucos fomos fortalecendo a amizade, um dia aceitei o convite dele para ir treinar Muay Thai com ele, fui e gostei, me mantive treinando sem gastar nada, o Airton tem um coração enorme e me tratou como um filho, conseguiu uma bolsa no jiu jitsu também, com o Guilherme, e assim começou minha história com as artes marciais. Comecei a lutar no amador, o Airton sabendo das minhas condições me bancava em tudo, sou muito grato a ele – conta.

Charles com o mestre Airton.

Não demorou muito para as primeiras lutas no amador acontecerem, sempre muito focado e determinado, Charles sempre soube que nada seria fácil em seu caminho. Apesar da ajuda fundamental do mestre Airton Nogoceke, ainda faltavam os patrocínios na vida do atleta, foi então que o Seginho, aluno de Airton, resolveu investir na carreira de Charles “Blackout” patrocinando os suplementos que o atleta precisava.

– Fiz algumas lutas no amador e resolvemos partir para as lutas profissionais. Foi nesse momento que o Serginho e a esposa, que estavam acompanhando nosso treino, que estava super intenso, e acharam estranha que após um treino muito desgastante eu bebi apenas água. Espantado com o que viu, Serginho perguntou se eu tomava alguma suplementação e o mestre Airton explicou que pela condição financeira eu não fazia uso de suplementação. Desde então ele tem sido o meu maior apoiador financeiro, é claro que também se tornou um grande amigo. – relata

Charles e equipe, inclusive o amigo Serginho. (Último da direita)

Um convite foi essêncial para que Charles se torna-se o campeão que é hoje, vendo a dedicação e o potencial enorme do pupilo, mestre Airton Nogoceke conseguiu parcerias para que o aluno se dedicasse apenas aos treinos, recebendo um salário para bancar suas depesas. A surpresa maior foi quando o mestre abriu uma nova academia e deixou Charles no comando da antiga, em pouco tempo o atleta conseguiu mudar inclusive de casa, saindo da comunidade Beira Rio para viver em um confortável apartamento em Curicica, ao lado da academia.

– Eu trabalhava durante o dia e treinava a noite, por isso a progressão era mais demorada, foi então que o mestre Airton me perguntou se eu queria viver de MMA, se era esse meu sonho. É claro que vibrei com a ideia, mas fiquei com medo por causa das contas e da pensão da minha filha, porém o mestre me convenceu que todo esforço valeria a pena e felizmente eu acreditei nele, aceitei a proposta e me dediquei 100% aos treinos, o responsável pela bolsa foi o Cassio, empresário do ramo da medicina, um anjo da guarda em meu caminho. Eu sou muito grato ao mestre Airton e a minha esposa, Flavia, os dois são os meus pilares. O Serginho e o Cassio foram os caras que também sonharam junto comigo, se vivo da luta hoje, devo muito a eles – conta.

Antes de se tornar o campeão peso mosca do WOCS, Charles vinha de uma sequência de quatro vitórias consecutivas, uma delas sobre Caionã “Blade”, hoje em dia seu companheiro de treinos. A luta entre os dois concorreu ao Prêmio Osvaldo Paquetá 2017, considerado o Óscar do MMA nacional, na categoria luta do ano.

Charles e Caionã na cerimônia do POP.

A edição 50 do WOCS foi responsável por consolidar de vez Charles “Blackout” no MMA nacional, com uma vitória dominante sobre Mateus “Raposinha”, atual campeão peso-mosca do Mr. Cage. Acostumado a uma vida de emoções, Charles, que dominou os três rounds, tomou um susto na metade do último round, quando recebeu uma sequência de golpes no rosto e mesmo assim conseguiu sobreviver. Após se recuperar, Charles “Blackout” voltou a dominar o combate e o cinturão foi conquistado por decisão unânime, para delírio da torcida que apoiou do início ao fim o atleta da Fusion Fight, equipe gerada após a fusão da Chute Boxe Rio com a Gracie Barra.

Buscando voos mais altos para este ano de 2018, Charles “Blackout” não esconde o desejo de lutar no exterior, principalmente no UFC.

– Muitos diziam que eu não conseguiria, que viver de luta era loucura, mas hoje eu provei que estavam enganados. Meu sonho é ser reconhecido pelo que fale e com isso ajudar mais minha família. Quero um contrato internacional para mostrar que estou pronto para conquistar o mundo – finaliza.