Cleiber Maia: O resgate da abordagem terapêutica do Jiu-Jitsu

Um dos objetivos pedagógicos mais importantes do Jiu-Jitsu é o terapêutico, mas isso nunca foi comprovado cientificamente. A  falta de investimento em pesquisa e na capacitação de instrutores para desenvolver a atividade nesse sentido dificultou a promoção do esporte como um instrumento de saúde.

O BÔNUS E O ÔNUS DE PROMOVER O LADO MERCANTILISTA DO JIU-JITSU

Durante as primeiras décadas a arte marcial foi desenvolvida no Brasil com o conceito de luta corporal mais completa que existe e capaz de transformar positivamente a vidas das pessoas. No início a competição amistosa não era o foco, até porque não existia uma organização esportiva.

No entanto, os tempos mudaram e a comunidade do Jiu-Jitsu desenvolveu os fundamentos técnicos do Jiu-Jitsu dentro de uma lógica de demanda de mercado, deixando em segundo plano o impacto da prática esportiva na saúde de cada pessoa especificamente. Mal ou bem, isso fez o esporte ter um crescimento viral no mundo todo e hoje é um instrumento poderoso de integração social e intercâmbio cultural.

As situações de conflito urbano deixaram de ser uma grande preocupação e, nesses processo de expansão mercantilista do Jiu-Jitsu, milhares de instrutores foram formados precocemente. Não houve capacitação  para educar pessoas nem promover uma lógica holística de formação do ser humano através da prática esportiva do Jiu-Jitsu.

A questão é que a lógica mercantilista é de exploração e não de crescimento integrado, nem dos negócios, nem do ser humano.

Não é algo a se lamentar, pois muitas oportunidades surgiram a partir desse processo de expansão, mas é importante observar que o Jiu-Jitsu precisa resgatar sua essência para valorizar seu diferencial.

UMA DEMANDA CRESCENTE QUE PODE AJUDAR NO RESGATE DA ESSÊNCIA DO JIU-JITSU

Temos hoje, um grande número de testemunhos sobre a mudança de  visão de pacientes terapêuticos após iniciarem o treinamento de Jiu-Jitsu, não necessariamente decorrente da força adquirida, mas principalmente em função dos conceitos técnicos, filosóficos e dos movimentos promovidos pela prática dessa modalidade esportiva.

Segundo a psicanalista e terapeuta de família Sônia Garcia, pessoas com síndromes que afetam a autoestima, os vínculos sociais e a segurança pessoal estão recorrendo a esta prática como parte do tratamento multidisciplinar, que envolve terapia, medicamentos e exercício físico, sendo o exercício o grande referencial de mudança.

Nem sempre o aluno quando procura uma academia tem consciência da necessidade de vivenciar o Jiu-Jitsu no âmbito terapêutico também, até porque a maioria dos instrutores não foram capacitados para abordar essa questão. Na maioria das vezes, o aluno quer apenas explorar o lado esportivo e as oportunidades desse maravilhoso fenômeno social que se tornou um estandarte da cultura brasileira no mundo todo.

A verdade é que o processo de especialização na estratégia competitiva visando a melhora da performance esportiva é um reflexo do desenvolvimento dos mecanismos de defesa usados no cotidiano do atleta. O amadurecimento dentro e fora dos tatames ocorre concomitantemente.

O problema é que essa é a mesma lógica do egocentrismo. No anseio de ser reconhecido como alguém especial em um determinado aspecto, o atleta tende a limitar a sua perspectiva holística de evolução e isso pode refletir negativamente no desenvolvimento dele como um ser humano íntegro. É unânime que esporte de alto rendimento desenvolve atributos maravilhosos, mas a saúde do atleta provavelmente será comprometida nesse processo.

À medida que a performance esportiva naturalmente se torna decrescente, surge a necessidade de busca profissional pós carreira esportiva de alto rendimento. É um momento crítico na vida de pessoas que se acostumaram a negar suas fragilidades diante de seus adversários.

Nem todo atleta tem uma boa estrutura psicológica, familiar, financeira, acadêmica ou um mestre que o tenha preparado previamente para essa transição, em que o ego começa a se revelar como o maior adversário do lutador.

“O artista marcial deve promover uma constante desconstrução do que mais tarde será o caminho a ser explorado pelo seu adversário.” (Cleiber Maia)

O IMPACTO TERAPÊUTICO E A PROGRESSÃO PEDAGÓGICA DA DEFESA PESSOAL

Por isso recomendo a introdução ao Jiu-Jitsu através dos fundamentos da defesa pessoal urbana para depois explorar os benefícios da atividade esportiva em sua plenitude. Na prática, fica difícil imaginar alguém treinando somente defesa pessoal a vida toda, já que provavelmente nunca terá que usá-la fora dos tatames.

O esporte é que vai garantir a continuidade da prática do Jiu-Jitsu com segurança, em larga escala, de forma divertida, dinâmica e interativa, mas não deve-se desprezar o legado dos conceitos da defesa pessoal no desenvolvimento psicológico do atleta.

Seguindo essa lógica, já na primeira aula o aluno deve perceber que é capaz de se defender tecnicamente do ataque de alguém maior e mais forte.

Isto é inspirador e a medida que pratica os golpes de defesa pessoal, vai desativando os gatilhos de reações baseadas em situações traumáticas acontecidas no passado.

A necessidade de estar em sintonia com a ação do adversário para que funcione o golpe tecnicamente condiciona a ação espontânea. Nesse momento vai por terra a visão “pré conceituosa” dos problemas, dos outros e até de si mesmo.

“Esteja em sintonia, pois dar o primeiro passo na direção errada pode ser fatal quando não há tempo para acertar a rota.” (Cleiber Maia)

O segundo momento é revelador. Acontece quando o aluno identifica que tem diversas opções para resolver qualquer conflito controlando de forma progressiva o impacto da sua reação até que o objetivo seja alcançado.

A própria prática esportiva também ajuda no treinamento de estratégias mais complexas de defesa e ataque. Nesse ponto começa um processo irreversível de desenvolvimento da objetividade e da responsabilidade mediante cada tomada de decisão.

O praticante de Jiu-Jitsu que valoriza a defesa pessoal naturalmente percebe a importância de ter bom senso, pois qualquer ação inconsistente, exagerada, precipitada ou retardada pode ser fatal num conflito urbano.

“O praticante de Jiu-Jitsu tem a oportunidade de morrer e renascer quantas vezes for preciso. Poucas coisas na vida são tão reveladoras quanto a morte iminente.” (Cleiber Maia)

O terceiro momento é libertador. Ele se dá quando o aluno percebe que conquistou o direito e o poder de exercer sua legítima defesa ou de alguém que esteja precisando de socorro. Alguns posicionamentos mais agressivos diante de conflitos que antes eram condenados socialmente, agora podem ser um instrumento de justiça e integração social.

Existe uma escala progressiva de soluções que um lutador de Jiu-Jitsu pode adotar na resolução de um conflito urbano, que pode ir desde um simples afastamento estratégico, um olhar intimidador, um alerta verbal, um argumento convincente, o controle físico do agressor, um golpe traumático ou até promover a morte de quem colocou sua vida em risco.

A questão é que o poder de matar pode ser tão maléfico quanto a incapacidade de se defender. Por isso os artistas marciais precisam, antes mais nada se tornarem diplomatas que respeitam códigos de honra, de ética e de conduta. Esses instrumentos de comunicação social são fundamentais para a criação de compromissos e valores que vão nortear as ações em comunidade.

“A maturidade de um lutador está na sua capacidade de assumir compromissos virtuosos”.(Cleiber Maia)

O mestre pode inspirar um aluno a desenvolver virtuosamente sua personalidade e também pode contribuir para a formação do caráter do aluno sendo um modelo a ser seguido, estipulando regras de convivência e tendo uma relação fraternal com ele.

Não digo mestre no sentido acadêmico, nem em relação à graduação esportiva, mas sim como uma pessoa que se compromete com o processo educativo e inspira o aluno a adotar hábitos que o farão uma pessoa mais madura, autônoma, responsável e consciente das suas potencialidades.