Com decisão dividida Rudson conquista vitória no WOCS 51

Os árbitros do WOCS 51, que aconteceu no Hotel Lagheto na Barra da Tijuca no último sábado (14), demoravam a entrar em um consenso sobre o resultado da luta entre Rudson Caliocane contra Wallace Itália e a expectativa só aumentava. “Decisão dividida”, apontava o Announcer Mailton Santos. Todos estavam atentos, sabiam que a luta poderia ir tanto para Caliocane quanto para Itália que não conseguiu bater o peso de 65 kg e, por isso, já entrou com desvantagem na decisão dos árbitros.

 

A luta foi equilibrada. Itália se mostrava muito forte no Muay Thai e Rudson não conseguia dominar a movimentação. O lutador do corner azul andava para trás com receio de entrar nos fortes chutes de Itália que conectou boas sequências de socos, chegando a abrir o supercílio de seu oponente. Rudson se recuperou e efetuou uma queda espetacular e com a guarda passada tentou um katagatame, porém sem sucesso. Após perceber a inefetividade do estrangulamento, o atleta da TFT tentou um armlock, porém Itália se defendeu muito bem chegando a jogar Rudson duas vezes contra o tatame. Após o gongo final os dois atletas se abraçaram. Sabiam que tinham dado tudo de si e que foi uma luta dura, porém agora nas mãos dos juízes.

 

Os dois atletas comemoravam enquanto a mesa dos árbitros analisava as notas. No entanto, o ambiente de tensão era nítido. A vitória poderia ser de qualquer um. Quando Mailton Santos se preparava para anunciar o vencedor, houve silêncio no ginásio que só foi quebrado com o anúncio da sexta vitória de Rudson Caliocane.

 

História

Foi pelo escudo da fé tatuado no peito que reconheci Rudson Caliocane, lutador de 24 anos da TFT, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. O treino havia acabado e os lutadores se preparavam para irem embora. Rudson dividia uma quentinha com outro lutador. A comida estava longe de ser a ideal para atletas de alto desempenho e se resumia a macarrão, arroz, farofa e um pedaço de carne. Essa é, as vezes, a única refeição diária do atleta que chega a treinar 12 horas por dia. O vencedor do prêmio Oswaldo Paquetá de melhor nocaute do ano de 2017, exerce a função de zelador da academia: limpa, confere os materiais, lava as roupas dos outros atletas e por essa função ganha um salário e uma bolsa para treinar. Quando a situação financeira aperta ele recorre à família em Cachoeira de Macacu, interior do estado do Rio de Janeiro, onde seu pai, Cleiton Caliocane, muitas vezes, faz turnos dobrados para poder ajudar no sonho do filho. Sonho esse que veio de berço, pois seu pai é faixa preta de Judô e sempre incentivou o filho a praticar artes marciais e ainda o aconselhou a trancar a faculdade de música e se dedicar totalmente ao esporte.

 

Ainda quando era um adolescente, aos 13 anos, Rudson, que vestia 44, entrou também no Jiu-Jitsu sem gostar muito, mas começou a se apaixonar pelas competições que foram gerando nele sede de vitórias. Logo depois, através de um amigo, começou a treinar Muay Thai. Hoje Rudson é faixa preta de Jiu-Jitsu, faixa marrom de Judô e graduação azul escuro no muay thay. Atualmente o lutador é atleta da TFT e treina com os mestres Philip Lima, Tatá (Otávio Duarte), Anderson França, William Viana e Hugo Cunha participando de treinos diários, além de natação e musculação. Rudson tentava, pelo menos uma vez por mês, descer a serra para treinar e passar uma semana treinando na academia, mas achava que era pouco, pois quem estava treinando continuamente sempre estava um passo à sua frente. Foi então que surgiu uma vaga para trabalhar na academia e o lutador foi convidado pelo mestre Otávio Duarte já que gastava muito tempo e dinheiro voltando todo final de semana para Cachoeira de Macacu.

 

“Eu sempre fui muito competidor. Não por ser melhor que os outros, mas se eles podem chegar até aquele lugar, eu também posso! O que eles estão fazendo que eu não estou?” diz Rudson.

O peso Galo tem em seu cartel, como lutador profissional, cinco vitórias e uma derrota que aconteceu logo em sua primeira luta em agosto de 2012 no Fatality Arena Fight Night 2. Para o atleta é essa derrota que o motiva a ser um lutador cada vez melhor. Ele conta que foi finalizado com um minuto e vinte três segundos do primeiro round de uma luta em que ele não fazia parte do card. A princípio o lutador só estava ajudando na preparação de seu primo Carlos Marvila que era quem lutaria, foi quando na pesagem para as lutas, um lutador de até 66 Kg, peso de Rudson na época, faltou e ele, mesmo sem ganhar a bolsa, prontamente se colocou a disposição para lutar e sentir a experiência de ser um lutador de MMA. A luta era contra o já experiente Irwing Romero Machado que contava, na época, com um cartel de sete vitórias e uma derrota. Com menos de um minuto de luta, Rudson já tinha quebrado o maxilar em dois lugares, o que rendeu 12 parafusos, três placas de titânio e duas cirurgias, mas continuou lutando até o final do primeiro round quando Irwing o finalizou na guilhotina. O lutador foi logo em seguida para ambulância, mas só havia uma e, se ela saísse para atendimento, o evento, por lei, não poderia continuar e teria de esperar até que a ambulância voltasse. Seu pai e seu tio decidiram então levar o atleta para o hospital de carro, onde só conseguiram atendimento após três tentativas frustradas. Ao receber a notícia, sua mãe ficou em choque, até porque ela não sabia que o filho havia lutado.

 

Os dois meses seguintes foram mais duros que a própria luta. De molho no hospital, Rudson só ouvia palavras de desencorajamento, foi incentivado a parar de seguir o seu sonho, de desistir de ser um lutador de MMA. A vergonha de ter perdido e envergonhado sua família o encarava todas as noites e ele quase acreditou nisso, quase desistiu, mas como o próprio Rudson diz: “Deus seria injusto ao nos dar sonhos que não possamos realizar”. Continuou. Engoliu a vergonha e transformou as palavras de desencorajamento em motivação e foi treinar de verdade. Subiu a serra de Friburgo e foi treinar Jiu-Jitsu com Anderson França. Subia a serra para apanhar, foi nocauteado duas vezes, mas não desistia, queria ser o melhor. Surgiu então uma luta no Wocs 42 contra o Marco Prado no ano de 2015 e, para esse combate, foi chamado para treinar na TFT. Precisou ouvir muitas críticas e zombarias dizendo que iria passar vergonha em rede nacional. Sua mãe pediu para que ele não lutasse, mas no dia da luta ela estava lá. Mesmo chorando, não concordando com a decisão do filho, ela foi vê-lo e naquela noite, após uma guerra de três rounds e decisão dividida, Rudson venceu. Ganhou o apoio e o respeito, não só da família, mas de toda uma cidade do interior do Rio de Janeiro que reconhece o seu esforço, sua dedicação e principalmente sua fé em acreditar nos sonhos que, por mais distantes que pareçam estar, podem se tornar reais.