Comemorar é preciso!

Soco no ar, cambalhota, mão espalmada para o alto, danças exóticas, dedo apontado pro céu. Os jogadores sempre foram craques na arte de comemorar os gols. Uns mais contidos, outros nem tanto. Tem jogador que se recusa a comemorar com contra o ex-clube- o que sinceramente acho um absurdo. Alguns são criativos, inventam coreografias, danças da moda, mandam recados pela televisão, imitam personagens. Outros gostam de entrar em polêmicas. Reboladinha para a torcida, imitar a mascote do rival, pedido de silêncio. Acho que tudo isso faz parte do jogo.

A gozação está na alma dos torcedores e os jogadores também levam isso para campo. É saudável e politicamente incorreto, o que também é bacana. Mas, os chatos de plantão estão ao lado dos “certinhos”, dos chatos de galocha. Comemorar gol agora é crime? O futebol é divertimento e a provocação também faz parte do nosso jogo. Se não houvesse rivalidade, o esporte se tornaria tão entediante quanto um jogo de bridge. Dá um tempo! Que a gente possa a voltar a ver mais Edmundos, Romários, Renatos e Violas e menos mimimi. A choradeira é geral, a alegria sumiu dos gramados.

Época boa quando os jogadores se atiravam nos braços da galera, arrancavam a camisa em êxtase, davam chutes na bandeirinha de escanteio para descontar derrotas passadas. Hoje, é punido quem extravasa. Jogadores um dia celebrarão o gol como um orgasmo de uma mulher recatada, em silêncio. É evidente que há limites na hora de vibrar. Vale pisar no símbolo do rival, vale mostrar as partes intimas para a torcida adversária, xingar os adversários? Existe uma linha entre a gozação e a falta de respeito. E a tolerância está cada vez menor e essa linha cada vez mais tênue. No clássico Ba-Vi, um dos mais folclóricos do futebol brasileiro, jogadores saíram no tapa após a comemoração do jogador Vinícius, do Bahia. Foi ofensivo? Tenho minhas dúvidas. Os ânimos já estavam quentes durante a semana, as redes sociais inflamam as torcidas e basta apenas uma faísca para a violência no estádio transformar campo e arquibancada num palco de guerra. Se a comemoração do jogador é de mal gosto, isso vai de acordo com a opinião de cada um. Vinícius disse que gosta de comemorar o gol daquela forma. A torcida do Vitória não gostou e os jogadores também não. Foi a tal faísca para acender o caldeirão baiano. Se essa mesma comemoração fosse feita em outro jogo, talvez não tivesse gerado aquela algazarra no Barradão. Não condeno a comemoração, mas acho que ali faltou feeling.  Me perguntaram nas redes sociais: Araujo, se o jogo fosse com portão fechado, condenariam a comemoração do Vinícius? O problema não foi o estilo, mas onde e como foi feito.

Em Mato Grosso do Sul, um jogador do Operário espancou o gandula que atua na base do Comercial e estava ali pra aumentar a renda da família. Segundo o agressor, o rapaz fez gestos obscenos para a torcida rival quando comemorou o gol. O gandula estava errado porque ele estava ali para catar as bolas e não para ofender os torcedores adversários. Mais errado ainda está o atleta que perdeu a cabeça e espancou o catador de bolas. Claro que um erro não justifica a agressão desmedida. O fato é que o futebol está cada dia mais chato. Culpa de parte da imprensa-careta, dos jogadores-vaselinas, dos torcedores sem senso de humor e dos cartolas-hipócritas. Futebol é bola na rede, festa, diversão e gozação. Mas no livro de regras e conduta do esporte, às vezes também é preciso respeitar a ética e o bom-senso.