Alexandre Araújo: Copa SP de empresários

A 49.ª edição da conhecida Copa São Paulo de Futebol Júnior 2018 começou no início dessa semana com a presença de nada mais nada menos do que 128 clubes, divididos em 32 sedes e com mais de três mil jogadores inscritos. Clubes tradicionais, equipes desconhecidas, futuras promessas, equipes montadas às pressas e empresários interessados em negociar seus atletas para equipes maiores, dentro e fora do Brasil. Se a competição surgiu com o intuito de promover o intercâmbio entre as equipes de juniores do país, hoje o torneio virou um grande mercado de jogadores, expostos a interesses dos comerciantes da bola, dos olheiros gananciosos. Nos primórdios da Copinha, disputada desde 1969, o encontro da nova geração de boleiros era organizado pela prefeitura da capital paulista. Em 1987, durante a gestão de Jânio Quadros, a prefeitura varreu a competição do calendário oficial. Foi a partir daí que a Federação Paulista de Futebol tomou as rédeas do “negócio” e começou a tocar a competição.   

A Copa São Paulo revelou inúmeros jogadores, como: Falcão, Cerezo, Denner, Djalminha, Raí, Neymar e Gabriel Jesus. Outros tanto brilharam nas divisões de base, mas não tiveram o mesmo êxito entre os profissionais. Nunes, campeão pelo Santo André, Dinelson, do Corinthians, Roniele, do São Paulo, Frauches, do Flamengo, são apenas alguns exemplos. São os jogadores alçados a categorias de craque muito cedo e que não cumprem a etapa necessária de preparação para se tornar um profissional. É nessa fase que entram os interesses, a ganância e o desejo de capitalizar o mais rápido possível em cima de uma promessa. Empresários vendem falsos sonhos, iludem os jogadores e familiares dos atletas mais novos, prometendo melhores condições de vida. Muitos caem no conto do vigário, se submetem a condições deploráveis e são obrigados a abandonar a bola mais cedo. O pular etapas faz parte do imediatismo, a busca por resultados a curto prazo. A bola pune, a vida também. Os grandes clubes normalmente protegem seus atletas, fazem vista grossa aos urubus de plantão, mas às vezes um descuido é fatal. Outras inúmeras equipes usam a competição para dar bagagem a seus atletas, promover o tal intercâmbio e quem sabe conseguir um bom negócio para seus futuros craques. E há também clubes de aluguel que simplesmente emprestam a sua camisa para o Empresário F.C armar suas negociatas. Nem clubes profissionais são. É a Copa São Paulo de empresários funcionando a todo vapor.

Apesar disso tenho grandes lembranças da Copinha. Em 1994, na Rádio Bandeirantes de São Paulo, os estagiários cobriam a competição durante as férias dos principais repórteres. A Copa São Paulo também era nosso estágio para o profissionalismo. Ao meu lado estavam André Plihal, Maurício Bonato, Mário Mendes, Alex Muler, Cristiano Blota, Ednelson Prado, Doni Vieira, Andrea Porto. Ali conhecíamos nosso meio, aprendíamos o ofício e conhecíamos as revelações. Minha primeira entrevista foi com um tal de Leandro Amaral, atacante da Portuguesa. O mesmo que brilhou em grandes clubes por onde passou. Era uma outra época, saudosa, diga-se de passagem. Como o futebol brasileiro vive as minguas, a competição vira um prato cheio para quem quer arrumar um troco no início do ano. A ideia inicial de promover o esporte nas categorias de base e solidificar a carreira de jovens talentos ficou em segundo plano. Quem apita o jogo é o dinheiro.