Decisão da Série C do Rio reúne dois expoentes da luta contra o racismo no futebol

Anderson leva a melhor sobre marcador do Itaperuna no Ary de Oliveira e Souza | Gabriel Torres/Campos
Yuri leva a melhor sobre marcador do Itaperuna no Ary de Oliveira e Souza | Gabriel Torres/Campos

O destino parece ter entrado em campo para escolher com cuidado os finalistas do Campeonato Carioca da Série C. Na véspera do dia em que se celebra a consciência negra, feriado no Rio e em outros nove estados, os dois times que entrarão em campo para o segundo jogo da decisão, ostentam uma bela e invejável trajetória de combate ao racismo e a qualquer tipo de discriminação. Concebido para ser um clube multicultural, reunindo brasileiros e atletas haitianos refugiados no país em busca do sonho de seguir carreira no esporte, o Pérolas Negras medirá forças com o Campos, clube fundado em 1912, que teve negros entres seus fundadores desde o início, em um momento no qual, nos grandes centros urbanos, se questionava até mesmo seu direito de atuar como atletas. Um confronto capaz de orgulhar Zumbi dos Palmares.

Torcedor do Campos, o jornalista Wesley Machado mergulhou nos feitos do roxinho e lançou em 2012, antes do retorno do clube ao futebol profissional, o livro “Saudosas pelejas: a história do Campos Athletic Association”, já esgotado. A obra, uma das raras a contemplar o período do Campeonato Fluminense, disputados pelos clubes do antigo estado do Rio de Janeiro, antes da fusão com a Guanabara, explica a escolha pelas das cores. O preto e o branco revelam uma preocupação em retratar a mistura das raças, enquanto o roxo é uma alusão ao cemitério do Caju, bairro onde o Campos foi fundado.

— Ângelo de Carvalho foi um dos fundadores do Campos. Era negro e foi presidente do clube. Na fundação, havia também duas mulheres, Angelina Carvalho Muniz e Maria Batista. Fomos também o primeiro time inteiramente formado por negros a ser campeão no Brasil em competições regulares. Aconteceu no primeiro dos seis títulos que temos da Liga Campistas de Desportos, em 1918, apenas 30 anos após a abolição da escravidão, quando a questão racial era um tabu ainda maior no Brasil — afirma.

O pesquisador lembra que o ambiente social para inclusão dos negros esporte, àquela altura, anda era muito delicado, e cita episódios históricos capazes de envergonhar, mas que não podem ser esquecidos.

— Os negros foram proibidos de jogar no Brasil em duas ocasiões. Em 1907, durante o Campeonato Carioca, quando o Bangu se desfiliou da liga e deixou a competição. Na ocasião, a organização rejeitou o registro do lateral-esquerdo de Paulino de Souza, do Botafogo, que acabaria como campeão. E em 1921, quando o então presidente da república, Epitácio Pessoa, recomendou que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) não levasse “jogadores de cor” para o Campeonato Sul-americano da Argentina — conclui Machado.

PÉROLAS NEGRAS: O DESAFIO DO COMBATE A NOVA FACE DO RACISMO

Peneira do Pérolas Negras no Haiti atraiu centenas de jovens em 2015 | Divulgação
Peneira do Pérolas Negras no Haiti atraiu centenas de jovens em 2015 | Divulgação

A Academia de Futebol Pérolas Negras surgiu quando o Viva Rio foi convidado a desenvolver uma missão no Haiti para aproximar esporte e cidadania. A situação de miséria foi país foi agravada por um terremoto em 2010 que arrasou a capital Porto Príncipe e deixou mais de 200 mil mortos. Aos poucos, o projeto, iniciado nas divisões de base, tornou-se hegemônico no país, mas o desorganizado campeonato nacional, com seu baixo nível técnico, era um obstáculo para o desenvolvimento das promessas locais, que precisavam de intercâmbio com equipes de qualidade superior.

Com um elenco totalmente formado por haitianos, o clube foi convidado a disputar as duas últimas edições da Copa São Paulo de Futebol Júnior. No Rio, o convênio para que jogasse competições de base em parceria com o Audax, no ano passado, fez com que a Ferj passasse a tratar atletas refugiados como se fossem brasileiros, isto é, sem prejuízo da cota de estrangeiros por equipe. Esse ano, o Pérolas Negras se profissionalizou e passou a jogar a Série C, equivalente à quarta divisão, por conta própria. O treinador Rafael Novaes, que iniciou o trabalho de base do clube no Haiti e dirige a equipe desde o início da caminhada que levou o elenco à decisão, reconhece que o time foi bem acolhido no Brasil, mas isso não evitou a xenofobia encontrada em outros países durante competições amistosas.

— Nossa busca pela igualdade de oportunidades é de longa data. Estamos plantando uma sementinha: em todos os lugares do Brasil temos sido muito bem tratados e só temos a agradecer pelo carinho. É uma pena que isso não aconteça com todos os nossos irmãos. Já rodamos o mundo inteiro, jogando competições na Noruega e na Suécia, por exemplo. Não quero citar casos específicos, mas  já passamos por situações desagradáveis, como hostilidade de pais de atletas e da arbitragem. Nós procuramos mostrar que, dentro de campo, todos são iguais. Uma vez, um árbitro não quis nem apertar a mão de um zagueiro nosso. Os haitianos sofrem muito com o racismo e com a xenofobia. Mas isso não nos desanima — explica.

A independência e a identidade do Haiti estão intimamente relacionadas à cultura negra. Inspirados pelos ideais da Revolução Francesa, negros escravizados, que compunham o maior grupo étnico do país, lideraram um sangrento movimento de libertação em relação à França, um fato histórico sem paralelo no mundo: a Revolta de São Domingos, iniciada em 1791 e concluída em 1804. Já íntimo da cultura haitiana, o treinador, que aprendeu a falar francês e crioulo haitiano na missão, entende que, aos poucos, o Pérolas Negras ajuda a mudar um pouco a percepção brasileira sobre o Haiti, demonstrando que o país não se resume a tragédia humanitária e sofrimento.

— Depois de quase dois anos, estamos ficando a bandeira do Haiti em todos os lugares onde vamos. Antes era só tragédia, pobreza, coisas que queremos que os haitianos esqueçam um pouco através do futebol. Isto eleva a autoestima e mostra que os meninos são capazes, porque não aguentam mais falar de desgraça e falar sobre os parentes que perderam. Fico feliz que a decisão tenha reservado um confronto entre duas equipes donas de uma história tão bonita. Que possamos sempre lutar por esses ideias de inclusão e de busca pela igualdade — conclui Novaes.

PÉROLAS NEGRAS ABRIU BOA VANTAGEM NO PRIMEIRO JOGO

Fora de campo, as normas para combater o racismo também tem endurecido. A constituição de 1988 transformou a prática em crime inafiançável. Em setembro deste ano, a a Secretaria estadual de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (Sedhmi) criou o Disque Combate ao preconceito, que funciona pelo telefone 2334-9551. No mesmo mês, a Assembleia Legislativa do Estado Rio de Janeiro (Alerj) aprovou uma lei que prevê multa para os clubes em caso de racismo de suas torcidas nos estádios. Os valores variam de R$ 155 a R$ 155 mil, além da suspensão da partida. Os recursos levantados com a aplicação das multas serão direcionados para o Fundo Estadual de Combate ao Racismo.

Campeões de suas chaves na fase classificatória, Pérolas Negras e Campos chegaram à decisão da Série C com vaga já assegurada para a Série B2 de 2018. O jogo de ida foi realizado na última quinta-feira, no estádio do Avelar Esporte Clube, em Paty do Alferes, quando os donos da casa venceram por 3 a 0. Neste domingo, o Campos precisa vencer por pelo menos três gols de diferença, para levar a decisão para a disputa de penalidades, no Estádio Antônio Ferreira de Medeiros, em Cardoso Moreira. O confronto terá início às 16h.

Reverter a vantagem aberta pelo Pérolas Negras é difícil, mas o técnico Guilherme Batista não se dá por vencido.

— O resultado obviamente não foi o que esperávamos. Estávamos muito confiantes no resultado. Depois do acesso, nosso objetivo é o título, e quero deixar bem claro que não desistimos. Estudamos o adversário mas, infelizmente, não conseguimos contê-lo. Nas nossas oportunidades, não fomos felizes. Jogamos muito abaixo do que apresentemos durante a competição. Temos noventa minutos para reverter a vantagem e só podemos nos entregar quando der o apito final — analisa.

O domingo reserva ainda outros dois jogos, pelos playoffs de acesso, que ainda oferecem outras duas vagas na Série A. No mesmo horário, o 7 de Abril, da Paciência, enfrenta o Resende, no Estádio De Los Lários, em Duque de Caxias. No primeiro jogo, o 7 de Abril levou a melhor, com vitória por 2 a 1. Como fez melhor campanha e joga por dois resultados iguais, pode perder por até um gol de diferença que estará na Série B2 em 2018. O Casimiro de Abreu vive situação semelhante. Depois de empatar fora de casa em 1 a 1 com o Tomazinho, de São João de Meriti, depende apenas de um empate para confirmar o acesso.