Divina comédia da bola: Os sete pecados do futebol carioca

Nossa senhora que está no céu. O Botafoguense deveria trocar suas superstições por uma reza mais forte. Não há santo que dê jeito nesse calvário alvinegro na Copa do Brasil. E não é a primeira vez que o torcedor do fogão comete o pecado de perder a fé com seu time de coração.  Ouvi impropérios impublicáveis até mesmo num confessionário, mas tenho que confessar que o futebol jogado no Rio de Janeiro é uma heresia.  Peçam por um milagre, pela ressurreição de ídolos, porque a situação está infernal. Não há santo que dê jeito. Ouço preces por contratações, mas os clubes estão com a sacolinha na mão. O dízimo do torcedor não paga a conta, dizem que, às vezes, é preciso fazer pacto com o diabo para no final ano garantir um lugar no céu do nosso futebol.

Vivemos nossa divina comédia da bola. Uns ainda estão no purgatório, acertando as contas com as administrações passadas. Outros já estão queimando no fogo do inferno, repleto de cobradores e contas a pagar. Estão aguardando o caronte, que os levará sem pudor para as divisões mais profundas. Dizem que no Fluminense a barca já passou, ledo engano caros amigos. O barqueiro que faz a travessia das almas está para chegar. É o apocalipse tricolor. “Dante” tantos pecados, as almas grenás passeiam pelo limbo. Num sonho improvável, vejo um cavalo de Tróia galopando a caminho das Laranjeiras, repleto de guerreiros dispostos a salvar a vida de um clube tantas vezes campeão.

E as tempestades não tem hora para chegar. Deuses Dourados se vão, a avareza dá as mãos à gula de poder e, finalmente, se instala a ira. Os apaixonados invadem, protestam, gritam contra os dirigentes soberbos. O nobre tricolor está petrificado, como se olhasse diariamente para a medusa de Abad. Nasce uma preguiça de torcer…

Na Colina, o inferno astral reina após a faminta eleição. A oposição derrotada é queimada na fogueira das vaidades, comandada por um velho cão de guarda. No círculo infernal, os traidores navegam por mares sombrios. Judas, bradam os seguidores rivais. A barca segue, guiada pelo Cruzeiro do Sul. A estação Paraíso reserva dias melhores. Mas para chegar até lá, é preciso visitar o purgatório, pagar as contas com o passado, se arrepender e aprender com os erros. A alma rubro-negra deixou a cobiça de lado, pôs a casa em ordem para enfim chegar aos sete céus. Ainda há luz no fim do túnel, velho “geraldino”. Quando a escuridão passar, tudo ficará mais cristalino. Novos dias virão, conquistas voltarão a aparecer e a rosa branca um dia surgirá em vossa mão. Mas como diz o velho poeta português: “Navegar é preciso”. Um dia a escuridão vai passar e a glória se elevará.