Em jogo cheio de ingredientes, França goleia Croácia e é Bicampeã Mundial

Um gesto para a eternidade: Lloris levanta a taça. A França é bicampeã mundial de futebol | Foto: Getty Images

O futebol respeita hierarquia. Surpresa do torneio, a Croácia fez muito por chegar até a final. Mas, pelas mãos de Hugo Lloris, é a França quem ergue a taça pela segunda vez em sua história e comemora o bicampeonato mundial, neste domingo (15), no Estádio Luzhniki! O feito inscreve Didier Deschamps no seleto rol de personalidades que conquistaram a maior glória do futebol como jogador e treinador. Um grupo que, até esta tarde, só tinha Zagallo e Franz Beckenbauer.

Em uma final que teve de tudo: gol contra, pênalti marcado com auxílio do árbitro de vídeo e falha clamorosa do capitão campeão, a França conquistou a vitória por 4 a 2 graças à estratégia e à eficiência de seus atacantes. Autor de um gol contra e um a favor, Mandzukic se tornou o segundo atleta a realizar o feito em uma partida de Copa do Mundo. Griezmann, de pênalti, Pogba e Mbappé anotaram os demais tentos gauleses. Perisic foi o outro artilheiro dos Quadriculados.

Depois do show de Will Smith e Nick Jam e da aparição de Ronaldinho Gaúcho fazendo ressoar um tambor no ritmo dos batimentos cardíacos de quem aguardava, ansiosamente, pela final, o jogo começou em cadência croata. Como era de se esperar, com um meio-campo experiente e que tem no passe sua principal virtude, os Quadriculados dominaram a posse de bola nos primeiros minutos e pressionaram a França com jogadas de lado de campo, cruzamentos e lançamentos buscando Mandzukic e Perisic. E assim chegaram com perigo, aos 15 minutos. Rakitic deu lindo passe de cabeça no corredor esquerdo para a velocidade de Perisic. Na hora de cruzar, porém, o jogador da Inter de Milão escolheu a jogada errada e Umtiti fez o corte. A França respondeu de imediato, com aquilo que tem de melhor: a rapidez de Mbappé pela direita. Com habilidade, ele envolveu a marcação e cruzou para trás, buscando Griezmann, mas foi a vez da defesa croata aliviar.

Na sequência, falta para a França na intermediária. O próprio Griezmann foi para a cobrança. Vendo a defesa croata toda postada às portas da pequena área, cruzou fechado, na direção do gol. Vice-artilheiro histórico da seleção quadriculada, Mandzukic subiu para ajudar a defesa, mas acabou efetuando um desvio mortal, que modificou a história do jogo e da Copa do Mundo. Bola no ângulo direito de Subasic, gol da França: 1 a 0 na decisão. Na Copa dos gols contra, o primeiro anotado em uma final  em todos os tempos (sexto a favor da França, a seleção mais beneficiada por autogols adversários em Copas).

A Croácia, no entanto, não se abalou com a desvantagem. E nem poderia. Assim acontecera nas oitavas, contra a Dinamarca; nas quartas, frente à Rússia; e nas semis, diante da Inglaterra. Dessa forma, não foi surpresa que, após ceder um contra-ataque a Mbappé, desarmado por Vida, os croatas tenham retomado o controle do jogo. Não demorou muito para que a equipe de Zlatko Dalic tivesse uma falta na intermediária, similar à francesa de minutos antes. Na Copa em que mais gols saíram de situações de bola parada, a decisão não poderia passar sem uma jogada ensaiada: Modric levantou no segundo pau para que Vrsaljko tocasse para o meio da área. A zaga tentou o corte e Vida ajeitou para Perisic. Com calma e categoria, ele fingiu o chute de perna direita e driblou Kante, trazendo a esférica para o petardo de canhota, cruzado, sem chances para Lloris. Tudo igual: 1 a 1, aos 28.

Só que, além dos gols contra e das bolas paradas, a Copa da Rússia também será lembrada como a Copa do árbitro de vídeo. E ele não poderia ficar de fora da grande final. Após cobrança de escanteio francesa, Matuidi tentou, mas não tocou. Perisic, que subia atrás dele, acabou tocando a mão na bola. Segundo árbitro a apitar a abertura e a final de um Mundial, o argentino Néstor Pitana foi chamado a rever o lance e acabou revendo mesmo sua marcação inicial. Ao voltar para dentro das quatro linhas, apontou o pênalti: a primeira decisão modificada pelo VAR em uma decisão de Mundial. Na cobrança, Griezmann deslocou o especialista Subasic (quatro pênaltis defendidos em disputas na competição) e desempatou. Ao fim do primeiro tempo, França e Croácia repetiam o placar de seu único encontro em Copas, ocorrido há 20 anos.

A segunda etapa apresentou uma Croácia menos controladora do jogo e mais agressiva desde os primeiros instantes. Antes dos quatro minutos, Rakitic lançou Rebic, que chutou forte, de dentro da área, para grande defesa de Lloris. Um minuto depois, o arqueiro gaulês foi de novo instado a trabalhar. Desta feita, teve de sair da área e usar o peito para interceptar a bola que chegaria a Perisic. Mas, se a Croácia atacava, a França teria o contra-ataque. E ele veio. Mbappé recebeu pela direita e partiu para cima de Vida. Na velocidade, foi imparável. Na finalização, porém, ficou em Subasic. E aí o gramado foi invadido por um grupo feminista contrário ao presidente russo, Vladimir Putin, presente ao Luzhniki. O jogo foi paralisado.

Contidas as invasoras, a partida foi reiniciada. Com a avalanche croata apresentada naqueles poucos minutos de segunda etapa, Deschamps abriu mão de um volante amarelado – Kanté – para colocar em campo o grandão Nzonzi. Mas foi o outro grandalhão quem apareceu para decidir, aos 15. Pogba viu o espaço e fez lançamento primoroso para Mbappé na ponta direita. O camisa 10 azul levou na linha de fundo e cruzou para trás. Sem espaço, Griezmann ajeitou para Pogba, que chegava à entrada da área após correr cerca de 60 metros. A primeira finalização, de pé direito, parou na zaga. Mas, no rebote, a chapa do pé canhoto mandou a bola para as redes: 3 a 1.

A Croácia sentiu o gol – e a necessidade de correr atrás de uma diferença de dois tentos. Aberta, quase deu chance a Griezmann de fazer o quarto, mas Strinic apareceu na hora H. No entanto, quando Hernandez arrancou pela esquerda, fazendo fila, foi cobrando de um a um dos eslavos o preço das três prorrogações seguidas. Saciado com a tortura promovida contra os oponentes já caídos pelo desgaste, entregou a pelota a Mbappé. Ele gingou na frente do marcador e bateu de longe, no canto de um plantado Subasic, para se transformar no segundo jogador com menos de 20 anos a marcar em uma final de Copa – ao lado de Pelé.

Com a vitória transformada em goleada e a apenas 25 minutos do grito definitivo de campeão, o jogo parecia acabado. Mas Lloris resolveu dar sobrevida à Croácia. Capitão do time, o goleiro de mais de 100 jogos com a camisa dos Galos recebeu recuo de Umtiti e resolveu driblar Mandzukic. Logo aquele que ainda sentia o peso do gol contra da primeira etapa e a necessidade de fazer o que fosse preciso para se redimir. Não deu certo. O desarme do atacante croata foi o toque necessário para mandar a bola para o gol: 4 a 2.

De volta para o jogo, os Vatreni tentaram. Rakitic bateu de meia distância, mas mandou à esquerda. A França teve novo contragolpe. Isolado, Mbappé, no entanto, não conseguiu aproveitar. Aos 36 minutos, Giroud foi substituído e deixou o Mundial em jejum.

Sem pernas, a Croácia tentava com o coração. Pouco contra um adversário que, durante todo o jogo, soube sustentar a pressão, manter a frieza e se segurar à estratégia, mesmo tendo a segunda menor média de idade entre todas as equipes que foram à Rússia. A cada minuto, os franceses não apenas ganhavam tempo, mostravam para os croatas que a virada incrível não estava ao alcance dos oponentes, mesmo depois dos feitos que pareciam impossíveis mas foram logrados pelos Quadriculados ao longo da campanha.

Praticamente no último lance do jogo, Pogba recebeu cruzamento livre, dentro da área, mas furou. Tudo bem! O erro se tornou pequeno e perfeitamente esquecível diante do apito final de Néstor Pitana. A França, 20 anos depois, é de novo campeã do mundo!

Os novos campeões do mundo (Imagem: Reprodução Twitter)

Nas tribunas, o presidente francês, Emmanuel Macron, abraçou a a governante da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic.

Terceira personalidade a conquistar o Mundial como jogador e treinador, ao lado de Zagallo e Beckenbauer, Didier Deschamps foi jogado para o alto por seus comandados. Em meio ao êxtase e às lágrimas de contentamento, o elenco francês foi em direção à torcida para fazer a sequência de palmas vikings, imortalizada pela torcida islandesa.

Do outro lado, o técnico Zlatko Dalic, que assumiu o time croata há apenas nove meses reuniu seus atletas em uma última corrente, antes de irem todos aplaudir a grande torcida do país presente nas arquibancadas do Luzhniki. Enquanto isso, nas redes sociais, a Federação Croata congratulava os franceses pela conquista.

O respeito se manteve também no gramado: os 23 jogadores franceses fizeram um corredor para aplaudir os jogadores croatas no momento em que subiam ao palco para receberem suas medalhas de prata. Já com as mesmas no pescoço, foi a vez de os Vatreni repetirem o gesto, cumprimentando um a um dos Bleus antes de, no pódio, serem consagrados definitivamente campeões do mundo.

A forte chuva, que ensaiara cair durante toda a decisão, resolveu dar as caras justamente no momento da cerimônia de premiação. Mas toda a água serviu apenas para aumentar a festa, surpreender Vladimir Putin – presidente da Rússia – e Gianni Infantino – presidente da FIFA – e para lavar de uma vez a alma de uma França Campeã do Mundo após 20 anos. Sob a água que caía dos céus e os papéis dourados picados, o capitão Lloris assumiu sua responsabilidade de mostrar para o planeta o objeto de desejo de todo o mundo do futebol. Um gesto para a eternidade.

Premiações Individuais:

Modric foi eleito o melhor jogador da Copa. Mbappé ficou com prêmio de Jogador Jovem do torneio (Foto: Getty Images)

Antes de a taça ser entregue aos campeões, foram entregues os prêmios individuais da Copa.

Luka Modric, líder da heroica campanha croata, foi escolhido como melhor jogador da Copa, conquistando a Bola de Ouro do Mundial e recebeu a premiação das mãos da chorosa presidente croata, Kolinda Garbar-Kitarovic.

Segundo jogador com menos de 20 anos a marcar um gol em final de Mundial, Kylian Mbappé foi premiado como Melhor Jogador Jovem do torneio.

Com seis gols, o inglês Harry Kane, foi o artilheiro da competição. Thibaut Courtois, da Bélgica, foi escolhido o melhor goleiro da Copa.

França 4 x 2 Croácia

Local: Estádio Luzhniki (Moscou – Rússia)

Árbitro: Néstor Pitana (Fifa/ARG)

Auxiliares: Hernán Maidana (Fifa/ARG) e Juan Pablo Belatti (Fifa/ARG).

França: Lloris, Pavard, Varane, Umtiti e Hernández; Kanté (Nzonzi), Pogba e Matuidi (Tolisso); Mbappé, Giroud (Fekir) e Griezmann. Técnico: Didier Deschamps.

Croácia: Subasic, Vrsaljko, Lovren, Vida e Strinic (Pjaca); Rakitic e Brozovic; Rebic (Kramaric), Modric e Perisic; Mandzukic. Técnico: Zlatko Dalic.

Gols: Mandzukic (g.c. FRA – 18’/1T); Perisic (CRO – 28’/1T); Griezmann (pen. FRA – 38’/1T); Pogba (FRA – 15’/2T); Mbappé (FRA – 20’/2T); Mandzukic (CRO – 23’/2T).

Cartões Amarelos: Kante, Hernandez (FRA); Vrsaljko (CRO)

Cartões Vermelhos: Não houve.

Público: 81.000 pessoas.