Exclusivo: Lucho comemora renovação, projeta sequência e revela racha no grupo

21462990_1593903373994969_2818887448475000243_nLucho Nizzo (Foto: Arquivo Pessoal)

De contrato renovado, Lucho Nizzo está feliz da vida após o anúncio da diretoria do America, realizado nesta quarta-feira (4). A extensão contratual até abril vem como reconhecimento ao trabalho de um treinador que assumiu uma das equipes mais tradicionais do futebol carioca em situação difícil na Segundona do Carioca e a levou de volta à elite do futebol do Rio. No entanto, a reunião do Conselho  Arbitral da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) definiu que o 2018 de Lucho começa mais cedo, com a primeira fase do Campeonato Carioca do ano que vem começando já no dia 20 de dezembro, ainda em 2017.

– Vai ser corrido – confessa o treinador de 54 anos, em conversa de uma hora, por telefone, com a reportagem da Live Esporte.

A ideia, segundo o técnico, é preparar o elenco por um período de 45 a 60 dias antes de voltar a campo para jogar a vida na Primeira Fase do Campeonato Carioca, onde seis equipes brigam por apenas duas vagas nos turnos da Série A do Estadual. Por isso, o America deve se reapresentar no próximo dia 16. No hexagonal estão Resende, Macaé, Cabofriense, Bonsucesso e Goytacaz.

– Acho. Não tenho certeza… Mas acho que Resende e Cabofriense saem na frente. O Resende já tem um grupo pronto. Fiz um levantamento. O Resende já tem um elenco formado. E a Cabofriense, pela história, sempre traz boas equipes. O Roy (treinador da equipe) está lá e sempre faz grandes trabalhos. E tem o Goytacaz também – destaca Nizzo, antes de admitir que está engasgado com o time campista, que tirou o título da Série B1 das mãos do America no último sábado (2).

– Começamos melhor no primeiro tempo. Fizemos o gol e tivemos chance de fazer mais e matar o jogo. Mas não matamos. Eles melhoraram no segundo tempo. Tomamos o gol num vacilo, em que ninguém foi no rebote. Mas o título ficou em boas mãos – analisa o treinador que tem 68% de aproveitamento na atual passagem à frente do Mecão, mas que, em três jogos contra o Azul da Rua do Gás, perdeu dois e empatou um.

Para manter o alto aproveitamento conquistado até aqui (20 jogos: 12 vitórias, cinco empates e três derrotas) e superar o Goyta na Primeira Fase, agora, da Série A do Estadual, o America de Lucho vai ter, primeiro, de correr contra o tempo para reformular seu elenco. Muitos contratos estão no fim, especialmente os dos jogadores emprestados à equipe rubra, casos, por exemplo, de Thadeu, Raphael Azevedo e Robinho, cujos direitos pertencem ao Nova Iguaçu. Ou ainda de Belarmino, Alan Nascimento e Silvano, que têm contrato com a Portuguesa-RJ. O treinador garante que a diretoria já faz contatos para buscar a permanência de alguns desses atletas e também para a contratação de outros atletas. Segundo ele, porém, ainda não há nada concreto sobre reforços.

Mesmo em meio às dificuldades e desafios que o cenário reserva, o técnico comemora a primeira oportunidade na carreira, em clubes, de iniciar um trabalho. Lucho projeta, ainda, a montagem de um elenco homogêneo e já aponta os pré-requisitos para a vaga de jogador do America:

– Feliz por dar prosseguimento ao trabalho. Nunca tive uma oportunidade de iniciar um trabalho, escolher os jogadores com o perfil adequado. Eu acredito que cada jogador tem um perfil, uma característica adequada a cada clube, a cada divisão. Para jogar no America, por exemplo, o jogador tem que ter personalidade forte, aguentar o tranco, levar a pressão de forma suave. A ideia é montar um grupo homogêneo, com os jogadores certos, de perfil e características, uma equipe forte fisicamente porque é uma primeira divisão. Tem que ser criterioso. Vou ter, agora, essa oportunidade de montar um trabalho, um elenco, e não só “apagar um incêndio”. E sonhar em pegar um caminho rumo à Série D, à Copa do Brasil – projeta Lucho.

O diagnóstico do que precisa um atleta para atuar na equipe rubra vem da experiência de quem faz sua terceira passagem pelo clube. A primeira foi em 2010, como auxiliar do tetracampeão Bebeto. Em 2012, já como treinador, evitou o rebaixamento da equipe mesmo com a necessidade de vencer ao menos quatro das cinco partidas que restavam ao clube no Carioca. No entanto, o perfil traçado por Nizzo para que um jogador atue no America tem influência das dificuldades vividas na campanha do acesso de 2017. Não unicamente as financeiras, comuns a grande parte dos clubes que atuam em divisões inferiores no futebol brasileiro. O treinador afirma não ter do que reclamar em relação à diretoria do clube, que ofereceu um almoço para todo grupo de jogadores e seus familiares na última terça (3) e, palavras do técnico, sempre deu, na medida do possível, as melhores condições de trabalho. Mas Lucho revela que a forte cobrança da torcida americana e um racha no vestiário durante a Segundona quase colocaram o acesso em risco.

– Era um grupo desacreditado e isso levou a problemas internos. Probleminhas de um jogador com outro. Quando cheguei, fiz algumas mudanças. E essa chegada com mudanças criou um racha no grupo. Os jogadores que saíram acharam que eu tinha problema com eles. E os que entraram acharam que quem saiu era de confiança do antigo treinador (João Carlos Ângelo, hoje no Americano). Eu não gosto de sacanagem, sou muito transparente. Não tenho nada pessoal contra ninguém. Mas houve um momento em que as coisas azedaram um pouco (após derrota para o Serrano, fora de casa, no início de agosto). Aí eu reuni os jogadores numa quinta-feira e disse para eles: “ou a gente fecha e lava a roupa suja para poder seguir em frente, ou vamos ficar dando murro em ponta de faca”. Eles discutiram entre eles, mas, em resumo: conseguimos contornar a situação. Eles falaram o que tinham que falar. Dali para frente as coisas ficaram mais tranquilas. O astral mudou e o grupo ficou mais leve, mais solto. Teve um início meio temeroso, mas depois deslanchou – conta o técnico.

Ainda assim, para o treinador, poucas coisas trouxeram tantas dificuldades para que o America retornasse à Primeira Divisão quanto a cobrança, por vezes desproporcional, da torcida rubra. E ele usa o gol sofrido na derrota diante do Goytacaz, pelo primeiro jogo da final da Série B1 do Campeonato Carioca, como um exemplo para explicar a situação.

– O America, hoje, é atípico. O torcedor não acompanha o dia a dia. Só acompanha no sábado e chega lá com a sua verdade. Só que, entre a verdade dele e a verdade do dia a dia, tem uma distância imensa. Mas isso gera uma situação de crítica muito forte. Por exemplo: vieram falar que o China foi responsável pela derrota (o lateral de 37 anos, pouco utilizado na campanha, foi titular e fez sua despedida do futebol no jogo). O China não estava nem na jogada. Mas o que acontece? O time perdeu por causa do China. Como o China trabalhou no America e botou o clube na Justiça porque não recebeu, a torcida não gosta dele. Mas ele está errado? – questiona o comandante – Eu tinha como responsabilidade dar confiança para esses jogadores, que tinham que entrar e jogar, mesmo sabendo que a torcida não gostava deles. Mas o grupo foi focado, nunca deixou de trabalhar. Ficavam chateados, mas nunca diminuíram o empenho. Os caras foram dentro. Mereceram muito a virada na campanha – exalta Nizzo.

Para atingir o objetivo final de classificar a equipe para a disputa da Série A, porém, o técnico faz questão de agradecer a ajuda de muita gente. Pessoas, às vezes, invisíveis mesmo em meio a uma campanha vitoriosa, como roupeiros, cozinheiras e equipe de fisioterapia. Mas também destaca o auxílio importante de um amigo em especial: Renê Simões. O também treinador ajudou Lucho com um trabalho de coaching que vem desenvolvendo com outros treinadores do futebol brasileiro, como Jair Ventura (Botafogo), Fabio Carille (Corinthians) e Zé Ricardo (Vasco).

– Ele me passava um feedback de cada jogador, emocionalmente, como eu deveria trabalhar com cada um. Ele dizia: “o grupo é bom. Tem probleminhas, mas podemos resolver na conversa” – conta o técnico do America.

Agora na Série A e de contrato renovado, Lucho Nizzo tem novos desafios pela frente. E não se trata apenas de preparar o elenco para a disputa da primeira fase do Campeonato Carioca, que se inicia já no dia 20 de dezembro. O desejo do Diretor de Futebol do America, Marco Antônio Teixeira, é de que o treinador auxilie também no desenvolvimento das categorias de base do America, que, hoje, contam apenas com os juniores.

– A ideia é revitalizar a base. Para o trabalho se sustentar, precisa de novos jogadores. Você forma, coloca no profissional para dar visibilidade e negociar. Ele me perguntou  se eu podia dar uma ajuda, criar um modelo verticalizado, que seguisse uma mesma linha no infantil, juvenil, juniores. Foram 25 anos trabalhando na base. Eu tinha interesse. Estou comprometido com os profissionais, mas não me impede de ajudar na base. Sempre tive paixão por trabalhar na base – finaliza o treinador que tem, no currículo, passagens pelas Seleções Brasileiras sub-15 e sub-17, onde treinou Alisson, Marcelo, William, Phillipe Coutinho e Neymar, todos, atualmente, jogadores importantes do grupo de Tite, já classificado para o Mundial da Rússia.