Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – Golovin, a imagem da esperança

O início de uma Copa do Mundo após quatro anos de espera é sempre simbólico pela renovação. Não só dos elencos, com suas novidades em relação ao mundial imediatamente anterior, ou das ideias de futebol apregoadas pelos treinadores das principais seleções e gatos-mestres de múltiplas nacionalidades. É uma renovação de votos do apaixonado com o futebol. É, sobretudo, um marco da renovação da esperança do torcedor em sua seleção. E, nesta quinta-feira, no jogo de abertura da Copa da Rússia, Golovin se transformou na imagem dessa esperança.

Apesar dos dois bonitos gols de Cheryshev, foi Golovin o grande destaque da goleada russa sobre a Arábia Saudita, por 5 a 0. Nos pés do meia começaram ou terminaram quatro dos cinco gols marcados no histórico Estádio de Luzhniki. A estreia com goleada foi muito mais do que o torcedor russo podia esperar de uma seleção que não vencia desde outubro do ano passado, há sete partidas. Mas se, numa noite russa – dessas que demoram a cair – um torcedor sob os efeitos da vodka, deitado na cama, observando a rotação do teto, delirasse com o capitão Akinfeev erguendo a taça do mundo no dia 15 de julho… Bom, seria Golovin quem, nos seus sonhos, conduziria a seleção à máxima glória do futebol.

Aos 22 anos, o jovem meia do CSKA, criado na Sibéria e oriundo do futsal, chama atenção por quebrar o estereótipo do jogador russo. É o mais jovem em meio a um grupo experiente. É o toque de cadência em meio ao jogo vertical, direto. É um pouco de habilidade em meio à força física. É uma gotinha de sonho em meio a esse oceano de realismo que é a seleção anfitriã da Copa. Enfim, é o diferente. E é, justamente, por isso que a imagem de Golovin é, hoje, a imagem da esperança em uma Copa do Mundo recém-começada.

Claro que a goleada sobre a Arábia Saudita não fará da Rússia favorita ou de Golovin um craque. Nada disso. Mas é que toda seleção tem um jogador diferente. E é sobre esse cara que recaem as esperanças dos torcedores de seu país. Troque a vodka pela cachaça que, no sonho do torcedor, em vez de Golovin, aparecerá Neymar, driblando, fazendo gols e triunfando em gramados russos. Troque por fernet ou por um Malbec e surgirá Messi levando a Argentina ao Tri. Já se o vinho for do Porto, a imagem é de Cristiano Ronaldo repetindo a mágica da última Eurocopa. E seja lá o que se beba no Egito, o torcedor imagina Salah, trajado de faraó, nos braços do povo. E assim, sucessivamente… Bebida típica por bebida típica. Seleção por seleção.

Por isso, hoje, excepcionalmente, em seus delírios – de bebedeira ou simplesmente da febre de Copa – o torcedor não verá o grande craque de seu país. Não! Ele verá Golovin, esperando que o cara diferente de sua seleção corresponda, do início ao fim do Mundial, às esperanças de seu povo. Assim como o guri russo correspondeu em seu primeiro jogo de Copa do Mundo.