Thiago Thomaz, técnico do Gonçalense, recebe Jonathan Martins, seu novo comandado | Divulgação

Gonçalense contrata meia que cumpre pena em regime semiaberto

Com apenas 20 anos, o meia-esquerda Jonathan Martins ainda tem idade para jogar na categoria de juniores, mas ele chega ao Gonçalense com um apetite que muitos veteranos demoraram décadas para construir. A motivação extra veio após um tropeço fora dos gramados: preso em flagrante por roubo à mão armada, o atleta cumpriu um ano e dez meses de detenção, da pena de cinco anos e quatro meses, no Instituto Plácido de Sá Carvalho, em Bangu. Desde novembro, está em regime semiaberto e ganhou agora uma oportunidade para recomeçar no clube de São Gonçalo, que disputa a Série B1 do Campeonato Carioca.

A aproximação entre o atleta, com passagens pelas divisões de base de Botafogo e Flamengo, e o novo clube foi intermediada pelo Instituto Brasileiro Lutando Por Vidas (LPV), que promoveu em julho, em parceria com o ex-jogador Roberto Brum, a primeira edição da Taça dos Presídios, disputada internamente em oito unidades do sistema prisional, e que reuniu 500 participantes. A iniciativa contou com o apoio da Vara de Execuções Penais (VEP), do Tribunal de Justiça (TJ-RJ) e da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap).

Pai do pequeno Miguel, de três anos, Jonathan demonstra arrependimento do crime, cometido em Nilópolis, ao lado de um colega, e garante que não deixará passar a nova oportunidade recebida.

—Perdi a melhor fase da vida do meu filho. Não o vi começar a andar e a falar, perdi o crescimento dele também. Nunca imaginei que fosse ter uma nova chance, e que ela surgisse logo dentro do presídio. Não quero mais saber dessa vida, mudei de hábitos, entrei para a igreja e, agora, estou muito focado e ansioso para que a temporada comece logo. O que mais quero agora é jogar — afirma.

O elenco do Gonçalense já começou a treinar. O atleta foi conhecer as instalações nesta quinta-feira, quando foi recebido pelo treinador Thiago Thomaz, e já deve ser integrado ao time nos próximos dias. O técnico já conta com o atleta para o jogo-treino do dia 16, contra o Bangu, em Moça Bonita. Presidente do LPV, Jorge Turco comemora o acordo fechado e tem mais planos para Martins.

—Nós vamos continuar a acompanhá-lo. Ele vai voltar a estudar, para concluir o ensino médio e, depois, fará faculdade. Estamos começando a conversar sobre isso e ele está disposto a mudar de vida e a se tornar um símbolo da Taça dos Presídios, para mostrar para os demais que mudar de vida é possível — explica.

Esse não é o primeiro caso de um atleta preso em regime semiaberto a poder jogar em um clube do futebol brasileiro. Destaque do São Caetano que despontou na Copa João Havelange, em 2000, o lalteral-esquerdo, na ocasião, cumpria pena por ter sido considerado cúmplice de um roubo.

Como está em liberdade condicional, Jonathan Martins é monitorado pela justiça com o uso de uma tornozeleira eletrônica e precisa comparecer quinzenalmente à sede do Tribunal de Justiça do Rio. O técnico Thiago Thomaz está otimista em relação ao sucesso do novo contratado, e garante que o clube pretende repetir a iniciativa em breve.

— Fico feliz em oferecermos a ele essa oportunidade, e queremos muito que ele a aproveite. Infelizmente, muitos jovens nessa situação sequer têm mais sonhos. Queremos que possam pelo menos sonhar. Acredito muito no papel do esporte perante a ressocialização. Eu não sei exatamente qual crime ele cometeu, mas nem quero saber: o importante é que está pagando por ele e está ganhando uma nova chance aqui. Jonathan Martins é o nosso primeiro reforço para a temporada 2018 — explica.

Munido de um velho sonho, com o qual se reencontrou no lugar mais improvável, Jonathan se apresenta nesta terça-feira no Gonçalense, onde iniciará os trabalhos ao lado dos novos companheiros de clube. Uma experiência que pode ser transformadora para todos os envolvidos e ajuda a construir um mundo melhor a partir do esporte.