Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A cambalhota de Mohammadi

Não é preciso jogar uma Copa do Mundo para saber como é a sensação de um minuto final, de ter a última bola do jogo. Qualquer um que tenha batido uma pelada na vida já viveu essa pressão quando veio, sabe-se lá de onde, o grito de “Dentro ou fora!!”. Aumenta o batimento cardíaco e, junto com ele, o medo de errar. O jogo parece mudar de velocidade: fica muito mais rápido para quem tem a bola, muito mais lento para quem tem a obrigação de se defender e garantir o resultado. É a hora em que aparece o cara que chama a responsabilidade, que gosta dela e, mesmo sob pressão, faz o diferente para assegurar o melhor desfecho para a equipe. Na mesma hora, também surge o sujeito que trava, dá pane, tela azul e se enrola – ainda mais do que de costume – com o peso da pressão. Todo mundo já viu isso num racha, pelada, baba ou qualquer outra coisa por aí. Só na Copa, a mãe do futebol, essas duas pessoas podem ser uma só.

Não chega a ser incomum para Milad Mohammadi ser duas pessoas ao mesmo tempo. Ou, ao menos, parecer. Irmão gêmeo de Mehrdad, o lateral de 24 anos, no entanto, sempre se diferenciou pela habilidade com a bola nos pés. Não que seu irmão seja ruim. Ele também é jogador profissional. Mas não é tão bom a ponto de se destacar e receber uma proposta de fora do Irã, tampouco de ser convocado pelo renomado técnico português Carlos Queiroz para defender a nação na Copa do Mundo da Rússia. Assim, quando a coisa apertou e o experiente Haji Safi sentiu a coxa, ainda no primeiro tempo, Milad Mohammadi foi chamado pelo treinador e começou a aquecer os músculos e a ansiedade por ganhar seus primeiros minutos na maior competição do futebol mundial. Mas só entrou aos 25 do segundo tempo, quando o placar já apontava 1 a 0 para a Espanha, na Arena Kazan.

A missão primordial era continuar fechando o ferrolho iraniano e manter o jogo por uma bola. E assim foi feito. Até a bola saiu pela linha lateral, próximo à área espanhola. O cronômetro marcava 48 minutos do segundo tempo. Mohammadi sentiu a pressão subir, o sangue esquentar: a reposição ali, no seu setor, só poderia ser um sinal.

Correu na direção do lance, se prontificando a cobrar o arremesso. Foi de um lateral jogado na área que apareceu uma das melhores chances do Irã no jogo. Ansarifard bateu depois do corte inicial da defesa e quase abriu o placar àquela altura. Mas dessa vez era tudo ou nada, era “dentro ou fora” e Mohammadi tinha a pelota nas mãos para lançá-la com força na direção dos possíveis cabeceadores iranianos que se postavam entre nomes como Piqué, Sergio Ramos, Busquets e De Gea. Somente algo diferente seria capaz superar aquela constelação de jogadores das maiores equipes do planeta.

Mohammadi pegou a bola e a secou. Com um beijo, tentou ganhar seu apreço, garantir o sucesso em seu destino. Jogador do Akhmat Grozny, é apenas um dos três jogadores de sua seleção a jogar a Copa do Mundo em casa, na Rússia. Suficientemente familiarizado com o país, mas nada conhecedor dos ventos ali, às margens do Rio Volga, a quase 2000 quilômetros do seu local habitual de trabalho. Ainda assim, partiu para um lance acrobático. Lançou-se num giro, na tentativa de dar impulso ao arremesso lateral que mudaria a sua vida. Uma verdadeira cambalhota que, fosse no circo, acabaria bem. Mas, no futebol, terminou com os braços de Mohammadi segurando a bola à frente do corpo, impossibilitando-o de lançá-la na área rival. Mohammadi parou. Em pé, recomposto e reequilibrado, recebeu a bronca do árbitro Andres Cunha pela demora na reposição. Perdido em meio à vergonha, sequer teve forças para cumprir com o combinado e apenas movimentou a bola para um companheiro próximo.

Se você está lendo este texto é porque está conectado à Internet. E, se está na Internet, é provável que já tenha visto em suas redes sociais ou recebido em seu celular um relato, uma imagem ou um gif do lance protagonizado por Mohammadi. A zoação é incontrolável e é o que, provavelmente, ficará de legado da participação iraniana na Copa, após a derrota de hoje. Mas, se você puder, lembre de Mohammadi como o cara que, ao ouvir o grito de “dentro ou fora”, chamou a responsabilidade e quis fazer diferente.