Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A espera de Mandzukic

A paciência de Mandzukic em esperar o que ninguém esperava levou a Croácia à decisão da Copa (Foto: Getty Images)

É por causa de verdadeiras batalhas como a de hoje que nenhum de nós gostaria que a Copa do Mundo acabasse. E, em verdade, ao apito final do turco Cuneyt Çakir, determinando a classificação da Croácia para sua primeira final, com vitória na prorrogação sobre a Inglaterra, muitos de nós já havíamos revisto nossas posições contrárias à possibilidade de um Mundial com 48 seleções. Às favas a ladainha sobre a pressuposta queda de nível técnico da competição. O que queremos é ver a história do esporte mais apaixonante do planeta ser escrita na frente dos nossos olhos, como na semifinal desta quarta (11). E, no fim das contas, 64 jogos são muito pouca coisa diante do vazio que nos toma pelos longos quatro anos de espera até a próxima Copa. E para suportar tamanha espera só tendo a paciência de Mandzukic.

Centroavante de um time recheado de qualidade justamente no centro de campo, de onde emanam jogadores capazes de fornecer a pelota coberta de açúcar qual um sonho de padaria para a finalização mortal de um atacante, Mario Mandzukic é – de modo nem um pouco surpreendente – o segundo maior goleador da história da seleção croata. Eram 30 gols marcados com a camisa xadrez até a bola começar a rolar na Rússia. Jogando no centro do ataque, como há algum tempo não faz na Juventus da Itália, pronto para ser servido por Modric, Rakitic e Perisic, o artilheiro de 32 anos começou a Copa com alta expectativa.

Mas a fase de grupos começou, se desenrolou e a bola teimava em não chegar. Sentado à mesa, guardanapo no colarinho, garfo e faca em punho para devorar o banquete, Mandzukic olhava com cara de pidão para a bandeja de prata de seus colegas garçons. No entanto, teve que se contentar em engolir a saliva mesmo na fácil vitória contra a Argentina. Veio o mata-mata e, enfim, uma bola suculenta para quem tem por ofício colocar a bola na rede. Nem essa, porém, veio de quem se esperava que viesse. Um bico da zaga dinamarquesa encontrou um cangote escandinavo no meio do caminho e, só assim, Mandzukic conseguiu sair do jejum.

Contra a Rússia, já insatisfeito com o atendimento, foi à cozinha. Pegou o prato, colocou-o sobre a bandeja e saiu ao salão. Antes que chegasse à mesa, observou a fome com que Kramaric tomava a área dos anfitriões e tomou a decisão de saciar o companheiro, ainda que significasse manter-se faminto. Mas, na semifinal frente aos inventores do futebol, o camisa 17 fez como as filhas de Baby do Brasil: escolheu esperar.

Posicionado em meio à fortaleza inglesa, montada com três defensores mais altos e mais fortes que ele, Mandzukic contrariou até mesmo Jó. Já era hora de que algum dos seus lhe ofertasse algo. Porém, passou, chupando o dedo, toda a primeira etapa. No segundo tempo, seguiu ali, ora escorado, ora apertado entre Stones e Maguire. Nesta posição esperava o cruzamento de Vrsaljko, mas ele veio alto e acabou encontrando Perisic. Não fora daquela vez, mas a paciência do centroavante haveria de ser recompensada.

Veio a prorrogação, a terceira em jogos consecutivos para acabadas pernas croatas. Minuto a minuto, um a um dos jogadores em campo foi parando de esperar alguma coisa da partida. O cansaço dominante empurrava cada atleta pelo calvário do tempo extra em direção ao inferno das penalidades. Entre os 22, Mandzukic era um dos poucos impassíveis. Tanto que recebeu de Perisic a bola do jogo. Mas ainda restava alguém resistindo como ele: o goleiro Pickford.

Era preciso aguardar sem deixar-se perceber. Escamotear o desejo por fazer história. No popular, fingir-se de morto para comer o coveiro. Assim, quando a bola foi rifada pela zaga inglesa, Mandzukic não se afobou, se desesperou, nem meteu a mão no baleiro. Quieto, escondido atrás da parede formada pelos grandalhões britânicos, apenas esperou a bola açucarada sair da cabeça de Perisic e pingar na área. Foi quando apenas esperou, que ninguém mais o fez. No bico da pequena área, sozinho, Mario Mandzukic não só matou a fome como se lambuzou ao acabar com aquela espera. Cento e nove minutos depois, deixava sua marca definitiva na Copa do Mundo. Vinte anos depois, levava um país de 27 anos à máxima euforia futebolística. A Croácia vai jogar, pela primeira vez, uma final de Mundial porque Mandzukic não deixou de esperar, mesmo quando ninguém mais esperava.