Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A fortaleza de borracha

Yerri Mina foi uma verdadeira fortaleza artilheira e cheia de ginga, mas Colômbia acabou eliminada (Foto: Getty Images)

A Copa do Mundo passa dos 19 dias e apenas oito times passam, seguem em frente para buscar a máxima glória. Após oitavas de final que revezaram dias de grandes jogos com dias de fortes emoções no fim – ainda que sem excelentes atuações dentro do tempo regulamentar. Se ontem tivemos o ótimo jogo do Brasil e a loucura da virada belga sobre os japoneses, nesta terça (3) foi dia da Suécia superar a Suíça, obviamente, pelo placar mínimo, num duelo que reuniu equipes muito mais conhecidas pela força de seus sistemas defensivos do que pela qualidade de seus atacantes. E o fim da noite reservou um confronto aborrecido, durante a maior parte do tempo, com uma péssima arbitragem e a histórica vitória inglesa sobre a Colômbia nos pênaltis.

Mas, na Copa do Mundo, como na guerra, a  história é contada no final pelos vencedores. E a Inglaterra vai contar que uma jovem esquadra, guiada por um furacão artilheiro, venceu uma longa maldição para avistar terras às quais não chegavam desde 2006 e seguir sonhando com a conquista do Mundo. E, claro, como todo vencedor de uma guerra, deixarão seus crimes e fraquezas bem longe das versões oficiais. Não dirão uma só palavra, por exemplo, sobre as simulações que costumam condenar na mesma escala em que, ridiculamente, utilizaram para tentar levar vantagem sobre os sul-americanos. Voltarão as costas e fecharão os olhos para a própria hipocrisia. Calarão também sobre a crise entérica que tomou conta de toda a equipe, reservas, comissão técnica e torcida quando a bola sobrevoou a área inglesa aos 47 minutos do segundo tempo. Crise que se agravou segundos depois e foi causada pelo nosso personagem.

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Yerri Mina não será lembrado pelos vencedores, mas sua história merece ser contada. Aos 24 anos, o zagueiro poderia ter chegado à Copa do Mundo com o ego inflado das estrelas que fazem parte dos grandes elencos do futebol mundial, como é o caso do seu Barcelona. Mas, preterido durante a temporada europeia para dar lugar aos mais conhecidos – e já eliminados – Piqué e Mascherano, além do jovem francês Umtiti, foi à Rússia com o moral em baixa e a desconfiança em alta. A ponto de ser deixado no banco na estreia dos Cafeteros frente ao Japão.

Quando pisou em campo, porém, fez história. Um gol por jogo: Senegal e Polônia já haviam conhecido a força do colombiano de quase dois metros de altura na bola aérea. E, claro, todo o ritmo, molejo e gingado de suas comemorações. Nas oitavas de final, foi a vez dos ingleses. Único zagueiro a anotar três gols de cabeça em uma só edição de Copa, Mina foi, no entanto, muito mais do que artilheiro e bailarino na noite de Moscou. Todas as vezes em que o English Team pensou que dobraria aquele defensor, que, em suas danças, parece feito de borracha, deparava-se com uma sólida fortaleza. Os ingleses, por certo, chegaram mesmo a duvidar sobre a origem das forças que enfrentavam ao notar a onipresença do camisa 13. Pelo alto, nas bolas paradas. Na tentativa de tabelas ou nos lançamentos mais longos. Pela esquerda ou pela direita. Em todos os lugares estava Mina.

O físico cobrou a conta do esforço: a virilha foi para o espaço. Mas a cada placa que subia com os números do próximo substituído por Jose Pekerman, o grandalhão contrariava a lógica e permanecia em campo. Veio o último lance, a bola cruzada, o toque de cabeça que evitou a eliminação no tempo normal e a explosão de alegria que o fez esquecer a dor e dançar como se não houvesse mais 30 minutos de heroísmo a cumprir. Mas quando a bola voltou a rolar, com britânicos assustados como crianças que viram o bicho papão sair de dentro do armário e apagar as luzes do quarto, o antigo jogador do Palmeiras retomou sua posição na retaguarda e manteve-se intransponível até que viessem as penalidades.

Quando Bacca teve sua cobrança defendida por Pickford e Dier confirmou a classificação dos ingleses, a fortaleza desabou. Ajoelhado no centro do campo, o gigante voltou a ser o menino de 24 anos que, em vez da alegria que espalha no ambiente da seleção colombiana, comandando o ritmo das coreografias no vestiário e no campo, sentia o sofrimento pela frustração de não ter podido mais. Entre as dores e delícias da coletividade do futebol, ficou só com as primeiras. E as dúvidas na cabeça.

O que será da seleção colombiana? James e Falcão seguirão liderando tecnicamente o país em mais um ciclo? E no Barcelona? Será que darão oportunidades a Mina? Ou vão abrir mão de quem é capaz de entregar tanto, na defesa e no ataque? Independente de qualquer coisa, é certo que os ingleses, com sua fleuma e hipocrisia, vão ignorá-lo como parte de sua história e a Copa vai seguir em frente… Com saudades da fortaleza colombiana e torcendo para que, daqui a quatro anos, ela volte a marcar no maior palco do futebol mundial, porque, afinal de contas: “Mina, suas dança é daora”.