Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A Justiça e Guerrero

Paolo Guerrero conseguiu justiça afinal, mas acabou injustiçado pela Copa (Foto: Getty Images)

Ao todo, 736 jogadores foram convocados para a disputa da Copa do Mundo. Para nenhum deles, o caminho para a Rússia foi tão longo e a espera pelo Mundial tão difícil quanto para Paolo Guerrero. Suspenso por doping às vésperas dos confrontos decisivos por uma vaga na Rússia, contra a Nova Zelândia, o atacante recorreu até a pena definitiva do Tribunal Arbitral do Esporte, o TAS. Condenado pela Corte a 14 meses de suspensão, ficaria fora da Copa. Porém, no dia 31 de maio, a justiça suíça concedeu efeito suspensivo, liberando o atacante a tomar parte no selecionado de seu país. No dia 4 de junho, Guerrero foi incluído, no lugar do meio-campista Peña, na lista definitiva entregue pela federação peruana à Fifa. Faltavam apenas 10 dias para o início do Mundial. Nesta quinta (21), ele entrou em campo como titular para defender sua equipe em Ecaterimburgo. Estava feita, finalmente, a justiça.

Primeiramente, na esfera esportiva. Guerrero rodou o mundo jogando futebol. Teve destaque na Alemanha, sobretudo com a camisa do Hamburgo, mas conquistou o planeta atuando pelo Corinthians, em 2012. O gol marcado na final do Mundial de Clubes sobre o Chelsea, que deu o título ao Timão, parecia irrepetível com a camisa da seleção de seu país. Parecia. O Peru não jogava uma Copa do Mundo desde 1982, na Espanha. Recentemente, vinha constantemente amargando a rabeira das eliminatórias sul-americanas ao lado da Venezuela e, eventualmente, da Bolívia. Até que Guerrero resolveu acabar com o caô também pela Blanquirroja. No caminho para levar sua seleção à Rússia, após 36 anos sem jogar uma Copa, tornou-se o maior artilheiro da história peruana, com 27 gols – marca que ele já ampliou para 35. Mas, após classificar o Peru para a repescagem contra a Nova Zelândia, marcando de falta contra a Colômbia, veio o doping. E, nisso, a presença de Guerrero na Copa afinal também fez justiça.

O centroavante do Flamengo foi punido após exame feito ao término do jogo contra a Argentina, pelas eliminatórias. Guerrero foi suspenso pela presença, em seu organismo, de benzoilecgonina, substância presente na cocaína. Ele e sua defesa alegam, desde então, que houve contaminação em um chá ingerido pelo jogador. Ainda assim, a caça ao chamado doping social pelas entidades responsáveis tiraria de Guerrero a chance de disputar uma Copa do Mundo, como se atletas profissionais tivessem que dar, fora das quatro linhas, exemplos para a sociedade. Mesmo que, dentro de campo, aos olhos de todos, eles deliberadamente enganem e tratem com falta de educação a autoridade máxima do jogo.

Os 14 meses de suspensão impostos a Guerrero, porém, chocaram a comunidade do futebol. O apoio dos jogadores e torcedores peruanos – e flamenguistas – era esperado. Mas a mão foi estendida até mesmo pelos possíveis rivais no maior evento esportivo da Terra. Os capitães das equipes adversárias do Peru na primeira fase da Copa decidiram agir para impedir a injustiça que seria deixar fora da festa o homem que carregou sua seleção de volta ao Mundial após tanto tempo. Lloris (França), Kjaer (Dinamarca) e Jedinak (Austrália) enviaram carta à Fifa pedindo que a pena do peruano fosse revertida. Ato que, em si, não teve qualquer efeito prático, mas que pode, de alguma maneira, ter ajudado a sensibilizar o Presidente da I Seção da Corte Federal Suíça em sua decisão de acatar o pedido de apelação da defesa de Guerrero e conceder efeito suspensivo para que o jogador representasse sua seleção na Copa do Mundo. Quatro dias depois, Paolo Guerrero estava inscrito, com a camisa 9, para disputar seu primeiro Mundial.

Antes, no entanto, de pisar oficialmente em gramados russos, o atleta seria injustiçado uma última vez, sendo colocado no banco de reservas para a estreia contra a Dinamarca. Nem as lembranças da campanha nas eliminatórias, nem os dois gols no último amistoso antes da competição, contra a Arábia Saudita, foram suficientes para convencer o técnico Ricardo Gareca da importância fundamental de Guerrero no time. Só os 28 minutos em campo no primeiro jogo da equipe na Copa e o resultado negativo, mesmo criando mais chances, fizeram o argentino realizar que não poderia haver Peru sem Guerrero na cancha.

Por isso, quando Guerrero entrou em campo nesta quinta, em Ecaterimburgo, com a 9 e a faixa, para enfrentar a França, foi como se a justiça finalmente estivesse completa. O longo caminho até a disputa de uma Copa do Mundo com a seleção peruana, na condição de líder daquele time, finalmente chegava ao fim para o atacante do Flamengo. Porém, depois de superar todos os obstáculos externos, viriam as dificuldades impostas por uma seleção formada por grandes jogadores como a francesa. Guerrero tentou, brigou com os zagueiros no jogo de pivô que lhe é característico. Teve a chance de abrir o placar, mas se a mão de Lloris esteve disposta a assinar uma carta para que o peruano estivesse ali, os joelhos não o deixariam marcar pela primeira vez em Copas. Por fim, recebeu uma bola no campo de defesa e foi desarmado, originando a jogada do gol francês.

O segundo tempo foi, de novo, mais de luta que de brilho e a derrota carimbou o passaporte peruano e datou para o dia 26 os bilhetes da volta da delegação do país para casa. No final de toda batalha travada para levar o Peru a um Mundial e disputá-lo com a camisa de sua pátria, a despeito do que ordenava a justiça desportiva e da rivalidade com seus adversários, Guerrero alcançou a justiça: conseguiu atuar em uma Copa do Mundo. Mas, aí, foi a Copa quem foi injusta com ele. Aos 34 anos de idade, é pouco provável que Guerrero volte a figurar em uma Copa após a partida contra a Austrália.