Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A nacionalidade de Mario Fernandes

O brasileiro e russo Mario Fernandes foi do céu ao inferno neste sábado em Sochi (Foto: Getty Images)

É difícil retomar as atividades normais de Copa do Mundo considerando a anormalidade de, um dia depois de ontem, não mais que de repente, não haver Brasil. Por mais que a ficha ainda não tenha caído, o time de Tite perdeu pela primeira vez em jogos oficiais. A tal Geração Belga segue, a Copa segue e a Seleção segue… Para casa. E, mesmo conhecendo os fatos, o calor dos acontecimentos ainda nos faz procurar algo verde e amarelo, um pedacinho de nós mesmos. Seja pela desilusão, seja pela necessidade de criar uma identificação que, quem sabe, gere uma torcida. E foi assim que os velhos olhos do espectador mais pacheco o quiseram enganar no fim da manhã deste sábado (7), colocando à sua frente um time de camisas amarelas e calções azuis. Mas o excesso de loirice e a escassez de mestiçagem na aparência e na bola jogada rapidamente recobraram a consciência de que ali estava não mais que a Suécia a abrir mão de seu jeito de jogar sem ser capaz de jogar de qualquer outro jeito. A óbvia vitória da Inglaterra veio sem gols de Harry Kane, o furacão que, mesmo artilheiro com seis tentos, jamais será o Furacão da Copa como o nosso Jair, goleador em uma por uma das partidas disputadas até erguer a taça em 1970.

Veio a tarde e, com ela, um jogo de Copa com um brasileiro de amarelo. Agora sim! Mas era Sandro Meira Ricci em seu segundo Mundial. Uma nova convocação que só pode ser explicada pelo pioneirismo do juiz brasuca no uso do árbitro de vídeo em gramados nacionais. Até que apareceu a escalação dos donos da casa e, nela, um nome familiar chamou atenção: Mario Fernandes.

Paulista de São Caetano do Sul, aos 27 anos, o lateral direito fazia mais um jogo defendendo a seleção russa com a incumbência de neutralizar jogadas armadas por Modric, Rakitic, Mandzukic e companhia para levar a sua equipe às semifinais de uma Copa. Um brasileiro em campo. Um brasileiro que não quis o Brasil, ao se negar a defender a Seleção, mesmo quando convocado. Tudo para, anos mais tarde, vir a disputar um mundial com outra bandeira. Mais: com uma camisa vermelha que não permite nem mesmo aos torcedores do Grêmio, clube onde foi revelado, sentir empatia pelo jogador, quanto mais torcer por ele.

A carência, porém, é fogo. E, como Meira Ricci estivesse praticando uma estranha discrição na partida, totalmente diferente de seu comportamento habitual em jogos das competições caseiras, Mario Fernandes era o Brasil possível em um gramado repleto de estrangeiros. Daí o ressoar dos gritos pelas janelas afora quando, aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, aquele defensor subiu em meio a russos e croatas para cabecear a bola e colocá-la nas redes de Subasic. Gol da Rússia! Gol do Brasil! Por um momento, o torcedor brasileiro, ainda convalescente da ressaca pela derrota do dia anterior, vestido com a mesma e suja camisa amarela, com a pintura feita a guache borrada nas bochechas, extasiou-se com a explosão daquelas 45 mil almas no Estádio Olímpico de Sochi, que representavam toda a alegria contida no maior país do globo. E nem reparou na crueldade de tudo aquilo. Um dia depois, um brasileiro marcava, nos minutos finais, o gol salvador que empatava uma partida de quartas de final de Copa do Mundo em 2 a 2 e garantia à sua seleção uma sobrevida na disputa.

No entanto, se era difícil, de cara, notar a maldade enrustida naqueles acontecimentos, era questão de tempo para os deuses do futebol tornarem evidente a, por vezes, insuportável vilania do jogo de bola. Carregando a responsabilidade de converter sua cobrança para colocar a Rússia em vantagem, Mario Fernandes tomou distância, correu e bateu forte. Em um instante, a trajetória da bola chutada por aquele que provocara as mais profundas emoções e despertara o amor de brasileiros e russos, se tornando o herói de uns pela redenção possível e de outros pela possibilidade da conquista do resultado impossível e inimaginado, transportava Mario Fernandes para a cruel dimensão da desgraça. Em um segundo, o antes adorado não era mais querido por ninguém. Russo para os brasileiros. Brasileiro para os russos.

Ao chegar no centro do campo e assistir à cobrança perfeita de Rakitic que selou seu destino e o de seus companheiros, também Fernandes já não sabia o que preferia ser, qual inferno escolher. O brasileiro, do longo retorno para casa em um avião cruzando os céus e turbulências da derrota e da eliminação? Ou o russo, do ar pesado pelo sentimento dos sonhos esmagados pelos pênaltis perdidos e das nuvens carregadas pelas lágrimas de uma população imensa, sem direito a fuga por já estar sob a jurisdição de sua própria terra?

Enquanto o Brasil sofre por ter sido eliminado por uma Bélgica cheia de méritos e a Rússia chora de tristeza por cair para a Croácia na loteria das penalidades, aquele defensor que brasileiros querem que seja russo e russos desejam vê-lo como brasileiro se torna muito brasileiro e muito russo ao mesmo tempo. No fim das contas, pela crueldade do destino definido na marca fatal, Mário Fernandes sofreu o dobro dos demais, porque só ele perdeu duas vezes.