Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A panela de Tite

Poucas vezes o técnico da Seleção Brasileira foi tão blindado de críticas. Tão unanimemente admirado. E, possivelmente, jamais este treinador do escrete foi tão bem definido como pelo uruguaio Diego Lugano, em uma entrevista. Tite é um “encantador de serpentes”, disse o ídolo do São Paulo. E é com esse poder de encantar que esconde o seu gosto pela manutenção da panela.

Ainda que tenha ficado evidente desde a primeira convocação, quando trouxe Renato Augusto e Paulinho para comporem seu meio de campo titular, mesmo com ambos atuando no tão misterioso quanto fraco campeonato chinês. Jogadores de confiança de Tite no Corinthians, carimbaram no clube paulista seu passaporte para a Copa do Mundo após a ascensão do treinador ao banco de reservas canarinho. Mas não parou por aí. Ao fechar a lista dos 23 que foram à Rússia tentar trazer o hexa, o professor não teve dúvidas onde o Brasil inteiro as possuía. Na vaga de terceiro goleiro, apesar da profusão de candidatos, foi de Cássio. Na lateral, Fagner despontou absoluto após a confirmação da ausência de Daniel Alves. Por fim, em vez de levar um dos destaques da meiúca do Grêmio, preferiu o velho Taison – que o tempo dirá, no futuro, se foi melhor que Messi; mas cujo passado já garante ter passado pelas mãos de Tite no Internacional.

Diante da coerência dos verdadeiros discursos proferidos pelo “encantador de serpentes” em suas entrevistas coletivas, a massa se recusou a verificar a incoerência do manager em dar de ombros ao desempenho e à performance (duas de suas palavras-chave) para manter os mesmos titulares que tiveram desempenho abaixo do esperado contra Suíça e Costa Rica. E foi aí que Tite mostrou gostar mesmo da panela, ao deixar Paulinho, Willian e Gabriel Jesus – titulares absolutos em seus 23 jogos à frente da Seleção – para o decisivo duelo contra a Sérvia, nesta quarta (27), em Moscou.

Só que dentro daquela panela tinha tempero. E dos bons. Tite, com a manutenção do time, soube colocar a pitada de confiança que faltava para a equipe, exatamente, no momento em que a massa poderia desandar. A infiltração de Paulinho, ausência sentida nos primeiro 180 minutos brasileiros na Copa, apareceu como o toque apimentado no final da garfada: a sutil surpresa do chef que resulta em explosão de sabor e faz de um prato comum o carro-chefe de um renomado restaurante. O uso correto dos ingredientes espantou para longe o amargor que atingiu a boca dos alemães mais cedo e trouxe à mesa do torcedor brasileiro a melhor atuação coletiva do time em três jogos.

E aí foi que Tite se livrou do avental e apareceu, de novo, como encantador capaz de domar a mais perigosa cobra da Seleção: Neymar. O atacante surgiu, na vitória contra a Sérvia, em sua versão menos individualista no Mundial. Partiu para o mano a mano quando o time conseguiu isolá-lo contra um só marcador. Mas também serviu os companheiros, deu continuidade às jogadas e foi presenteado com a assistência para Thiago Silva, no segundo gol. Além disso, mostrou-se domado no comportamento e, mesmo quando apanhou, teve a doçura de um cordeirinho para aceitar os pedidos de desculpas rivais, levantar-se e seguir a toada do olé aplicado sobre os eslavos.

A classificação brasileira em primeiro lugar no grupo coloca o time canarinho frente ao México, contra quem o histórico não é dos melhores. Não há razão, entretanto, para sobressaltos. Tite está na cozinha, comandando a panela com o tempero certo, pronto para neutralizar a pimenta mexicana e encantar serpentes mundialistas apenas com o bom futebol da Seleção.