Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A pose de Gueye

A imagem de Gueye (5) no gol que eliminou Senegal da Copa chamou atenção e fez dele o personagem do dia (Foto: Getty Images)

Pela primeira vez na história da Copa do Mundo, uma classificação foi definida pela aleatoriedade das decisões do árbitro. O critério de desempate passou pelo critério e, muitas vezes, pela falta dele nas marcações dos juízes. Por conta de dois cartões amarelos, a carismática seleção de Senegal caiu na primeira fase e o Japão avançou para as oitavas de final mesmo perdendo para a Polônia. Para o exemplar Aliou Cissé, único técnico negro entre as 32 equipes presentes à Rússia, nada demais:

– Senegal não se classificou porque não merecemos. Assim é a vida. Os pontos do Fair Play são uma das regras estabelecidas pelo regulamento do torneio; temos de respeitar isso. Nós pereferiríamos ser eliminados de outra forma, mas é assim que funciona e nós sabíamos que esses eram os critérios – disse o treinador, após o jogo.

E a verdade é que, por mais cruel e injusto que seja esse jeito de decidir quem segue no sonho do maior título do esporte mundial e quem volta para casa de mãos abanando, um detalhe maior definiu a eliminação dos africanos. Uma derrota para a Colômbia. O gol de cabeça do zagueiro-artilheiro Yerri Mina, nesta quinta (28), em Samara, determinou não só a passagem de fase do talentoso time colombiano na primeira posição do Grupo H. Foi também a punhalada que destruiu a invencibilidade  de Senegal em Copas do Mundo.

Na primeira participação da equipe, quando a seleção senegalesa era capitaneada pelo seu atual treinador, Cissé, o time acabou caindo para a Turquia só nas quartas de final: 1 a 0, gol de Mansiz, marcado apenas na prorrogação. Isto é, oficialmente, o jogo terminou empatado. Ao todo, portanto, o histórico aproveitamento mundialista de Senegal tem oito jogos, três vitórias, quatro empates e a derrota para a Colômbia, da qual surge o personagem desta coluna.

No lance do gol de Mina, a participação de um jogador chama atenção. Justamente, pela não participação. Seria mais cruel crucificá-lo como culpado pelo tento sofrido do que tirar uma seleção da Copa por causa de um cartão amarelo. Então, não se trata de caça às bruxas. Mas a pose de Gueye chama a atenção.

Aos 28 anos, o volante do Everton (ING), é conhecido por sua raça e determinação, brigando por cada bola. No entanto, quando Mina cabeceia forte para o chão, no canto esquerdo do goleiro N’Diaye, a imagem que permanece na retina – replay após replay – é a de Idrissa Gana Gueye, encostado na trave com a mão na cintura.

Gueye, encostado na trave, com a mão na cintura, observa o gol colombiano (Foto: Getty Images)

O olhar quase vazio, a despreocupação de quem escorou-se no poste, em plena hora de almoço, para fumar o cigarro pós-cafezinho e observou de ângulo privilegiado um gol decisivo do maior evento esportivo da Terra. O tiro vindo da testa de Mina não era, absolutamente, defensável para o goleiro. E uma eventual esticada de perna de Gueye, certamente, não seria também capaz de impedir o gol colombiano. Mas quando se fala de uma partida decisiva de Copa, o comentário geral é de que um mínimo detalhe pode significar a diferença entre quem segue e quem fica. E a pose de Gueye entrará para a história como o instante de relaxamento que acabou com a campanha de uma seleção até ali invicta.