Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – A vergonha de Taremi

Passados mais de metade dos jogos deste Mundial, é chegada a hora dos extremos. Ou extrema alegria, ou extrema tristeza. Sentimentos próprios dos momentos de definição, que determinam quem são aqueles que podem seguir sonhando e os outros que precisam acordar e lidar com a dura realidade de mais quatro anos tentando dormir em paz novamente, com o sonho de uma conquista de Copa do Mundo em vista.

Mas às vezes o sentimento é um pouco distinto. Nesta segunda (25), por exemplo, houve a tristeza contida, porém orgulhosa, do recordista El Hadary, jogador mais velho a atuar em Copas. Com 45 anos na carcaça, o goleiro egípcio ainda teve forças para ir buscar um pênalti adversário, mas acabou saindo derrotado de seu único jogo de Mundial após sofrer um gol no último lance. Classificados, os espanhóis vão às oitavas mais assustados que alegres após o empate com Marrocos. Os portugueses foram outros que, no máximo, experimentaram o alívio após se garantirem no mata-mata com um chorado empate com o Irã. Aliás, de todos esses, foram os iranianos os únicos a sofrer, como esperado, a terrível tristeza dos desclassificados. À exceção do nosso personagem do dia.

Mehdi Taremi era o mais inconsolável entre todos os iranianos presentes ao estádio de Saransk após o apito final do confuso árbitro Enrique Caceres. O goleiro Beiranvand mostrava o rosto limpo e a resignação que só quem pegou o pênalti de Cristiano Ronaldo poderia sentir. Os torcedores e demais colegas choravam um pesar orgulhoso de quem chegou perto demais de fazer história, mas acabou eliminado. Enquanto isso, Taremi escondia seu rosto na camisa branca da seleção persa. Jogado no chão, o camisa 17 tinha dificuldades de reagir em meio às lágrimas sufocantes e ao descompasso dos soluços. O autor do gol iraniano no jogo, Ansarifard, foi lá acudi-lo e pedir aplausos da torcida para o atacante que, em 2017, foi o melhor jogador do campeonato iraniano.

Nem a atitude do amigo foi capaz de conter o pranto do jogador de 25 anos. É que, enquanto os outros remoíam a tristeza de um empate heroico que não foi suficiente para que os iranianos passassem às oitavas, Taremi se engasgava com a vergonha. Não que os asiáticos fossem favoritos a uma vaga num grupo que tinha Portugual e Espanha. Pelo contrário. Mas as chances se tornaram concretas, palpáveis depois que Ansarifard marcou de pênalti e empatou a partida contra os lusos. Seria o suficiente para garantir o Irã na fase seguinte pela primeira vez na história, não fosse o gol do espanhol Iago Aspas sobre Marrocos, marcado praticamente ao mesmo tempo em que a bola também tocava as redes de Rui Patrício. Voltar para casa ao fim da primeira fase seria, portanto, apenas obra do destino. Mas aí Ghoddos chutou, a bola bateu na defesa e sobrou limpa na área para Taremi.

Autor de oito gols nas Eliminatórias Asiáticas, que transformaram o Irã na principal força do continente antes mesmo da boa campanha no Grupo B da Copa na Rússia, Taremi não tremeu com a responsabilidade, mas falhou na conclusão. O chute de perna esquerda tocou o lado errado das redes portuguesas e foi a última oportunidade da seleção persa de dar o passo nunca dado. Assim, ao fim do jogo, o peso do chute para fora foi como se a Arena de Saransk lhe caísse inteira sobre as costas.

A imagem do homem retorcido em lágrimas, com vergonha do mais comum dos erros em um jogo de futebol, foi um contraste, uma mancha no quê de beleza apresentada pela comunhão entre as tristezas dos jogadores e dos torcedores iranianos ao fim do jogo.