Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – Escobar e a pureza

O quinto dia de Copa foi dos artilheiros. A vitória dura da Inglaterra sobre a Tunísia só veio graças aos dois gols do centroavante Harry Kane. Mais cedo, Romelu Lukaku estava, como gosta o pessoal das redes sociais, on fire, e resolveu o jogo para a Bélgica. Mas é muito difícil – ao menos nesta coluna – competir com o carisma de um estreante. Ainda mais quando ele proporciona segundos de magia, de futebol no auge de sua pureza.

Não, a seleção panamenha, em seu primeiro jogo de Copa do Mundo, não foi um time de sorriso bobo aberto para a promissora geração belga. Mas nem a experiência de Blas Pérez, Tejada e do velho Baloy (ex-Grêmio) evitaram que a garotada, que classificou a seleção pela primeira vez a um Mundial, chorasse no hino e se comportasse com a ingenuidade de um debutante em um duelo tão duro. O resultado não poderia ser diferente. Mas o breve momento proporcionado pelo defensor Fidel Escobar deu colorido diferente ao fim de tarde em Sochi, nesta segunda (18).

Mertens e Lukaku já tinham matado o jogo, o placar já apontava 3 a 0 para os belgas e os panamenhos se atiravam em direção ao gol adversário com a avidez de lambuzar-se no melado que nunca comeram. Sem sucesso. Mas, com o jogo já paralisado para atendimento de um companheiro caído, Escobar viu-se com a bola praticamente no centro do campo. E o centro do campo de uma partida de Copa do Mundo é, durante 90 minutos, o centro das atenções de bilhões de apaixonados pelo futebol. Trocando em miúdos, Escobar tinha a bola nos pés no umbigo do mundo.

Com apenas 23 anos de idade, o zagueiro do New York Red Bulls, dos Estados Unidos, possui apenas um gol marcado com a camisa de seu país. Mas um gol importante, que deu a vitória ao Panamá contra Honduras, com quem brigava diretamente nas últimas eliminatórias por uma vaga na Rússia. Do alto de sua juventude, sem dúvida, sonhou esta noite com anotar o primeiro tento de sua nação na Copa Mundo. Por isso, com domínio da pelota em pleno centro de gravidade da Terra, o defensor levantou a cabeça e viu o goleiro Courtois adiantado.

Escobar não quis saber do apito do árbitro, do jogo parado. Não se importou com o quão ridículo seria se pegasse errado na bola e a mandasse longe do seu objetivo. Por alguns segundos, nenhum panamenho ligou para as questões geopolíticas concernentes ao conhecido canal. Nenhum belga deu bola para sua cerveja ou seu chocolate. Nenhum torcedor prestou atenção no juiz. O mundo parou para olhar aquela bola, aquele chute que não geraria qualquer efeito prático. Enquanto a esfera desenhava sua parábola pelos ares de Sochi, a Copa do Mundo deixou de ser o maior evento esportivo do planeta, uma competição que serve de vitrine e oportunidade de negócios para jogadores, treinadores e patrocinadores e o futebol voltou a ser só um jogo, disputado pela beleza de suas jogadas e movimentos e pelo prazer das peripécias que se pode fazer com a bola.

Quando Courtois saltou para espalmar aquela bola pela linha de fundo, o povo soltou seu suspiro, aplaudiu o espetáculo e tudo voltou ao normal. No entanto, o sopro de ilusão saído do pé direito de Fidel Escobar ficou na memória como um instante de rara pureza futebolística em gramados russos. Algo que só poderia vir da ingenuidade de um estreante.

*********************************

(Agradeço ao amigo Gregory Kaskus, do Sportv, sem o qual essa coluna não sairia.)