Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O beijo de Giroud

O beijo de Giroud em Umtiti é muito mais que a comemoração de um gol (Foto: Getty Images)

A Copa do Mundo vai terminando de extrair o puro suco do futebol mundial. Nesta terça (10), espremeu mais duas seleções qual fossem laranjas para tirar delas o máximo em 90 minutos e aproveitar apenas a vencedora, coando e jogando fora, como bagaços a equipe derrotada em São Petersburgo. O gol marcado de cabeça por Umtiti selou, em definitivo, o destino dos belgas como campeões mundiais apenas na cerveja e nos chocolates, e conduziu a França à oportunidade de conquistar o bicampeonato. Mas, de um jogo muito disputado, com grandes defesas de Lloris e Courtois, um passe mágico do garoto Mbappé, e uma seleção francesa madura a ponto de não ter sua vantagem ameaçada, a imagem que fica é de Giroud.

Causará espanto. Ou escarnecimento até. O personagem de uma finalista de Copa – com craques e méritos – ser um centroavante grandalhão incapaz de marcar um gol nas chances criadas por seus companheiros ao longo do jogo. Pior, em jejum por toda a campanha de, agora, seis jogos disputados pelos Galos no Mundial. Mas, ao leitor, peço calma. Não se trata aqui de analisar em pormenores os (mal) feitos do atacante com a bola rolando. Mas sim, o seu beijo na fronte salvadora do zagueiro Umtiti enquanto a bola ainda repousava calma em redes belgas.

O afago no companheiro é reconhecimento sincero do atacante que, em 465 minutos, não logrou atingir a meta do jogo a um dos pilares defensivos da equipe. Quarto maior artilheiro da história dos Bleus, com 31 gols (mesmo número que Zidane), Giroud, a cada lance desta Copa, deixa transparecer no rosto as feições da angústia pelo zero ao lado de seu nome na lista de goleadores do Mundial. Ainda que seja escalado por Deschamps nem tanto pelo faro de gol, mas para auxiliar os rápidos companheiros de linha de frente a tabelarem e terem a bola em um time sem meia-armador. Diferente de Gabriel Jesus, no entanto, é técnica e não tática a sua contribuição para a equipe.

Mas isso pouco tem a ver com a beleza daquela imagem. O gesto de Olivier Giroud ultrapassa os planos da singela e eufórica demonstração de carinho. Carrega consigo o simbolismo de algo maior que a emoção da comemoração de um gol tão importante para as pretensões de uma geração de ótimos jogadores em busca da maior conquista em seu esporte.

O estalar do beijo no colega coloca a pele branca de um colada ao rosto negro do outro. Uma mensagem nada velada que fala por muito mais do que as frações de segundo de duração do carinho. Explica o bom futebol de uma seleção que só chegou aos píncaros do planeta bola quando se abriu definitivamente à mistura. E, principalmente, evidencia a harmonia com que atua e se relaciona um time mestiço, composto quase inteiro de imigrantes que convivem em paz com nativos: uma lição para quem ainda repudia a chegada de quem foge da opressão, da violência e da humilhação – ou que vá por qualquer outro motivo – em busca de um pedacinho que seja de felicidade.

Em pleno solo russo, onde uma das preocupações mais prementes sobre a realização de um evento que reúne a audiência de mais de um bilhão de pessoas eram os atos racistas comuns nas praças esportivas, a foto de Giroud e Umtiti é outdoor.

Mas aquele beijo é também de agradecimento. É o gesto de gratidão eterna a quem, naquele dia lhe garantiu uma oportunidade a mais de lutar por seu objetivo. À grandeza de quem se impôs frente às dificuldades para manter vivos os sonhos de quem, por si, não seria capaz. Na testa de Umtiti, por alguns instantes, pousou o beijo que o mundo quis dar não em um herói de classificação em Mundial, mas em heróis de verdade. Pessoas que resgataram ou ajudaram a resgatar todo um time de pequenos jogadores e seu técnico, que disputaram, um dia após o outro, seguidas finais de Copa do Mundo valendo as próprias vidas em uma caverna na Tailândia. Antes da final, já há campeões. Entreguem a taça do mundo aos Javalis Selvagens e àqueles que os salvaram.