Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O choro de Neymar

Foram 91 minutos de pressão para todos. Menos um. Não que ele não tenha sentido. Pelo contrário. É que para esse jogador da Seleção Brasileira, especialmente, a necessidade de uma boa atuação e uma vitória não começou no apito inicial do árbitro. Veio de antes. Foram cinco dias falando nele. Antes, tinham sido outras semanas falando nele. Daí o fim de jogo, com a vitória por 2 a 0 sobre a Costa Rica, nesta sexta (22), ter contrariado os Racionais Mc’s. Não foi Jesus quem chorou. Foi Neymar.

Os 26 anos de idade já tornaram as costas do menino largas o suficiente para aguentar as pancadas. Muito mais que os tornozelos, que não resistiram às entradas dos suíços na estreia do terceiro melhor jogador do mundo, segundo a Fifa, em sua segunda Copa do Mundo. As dúvidas para o duelo contra a Costa Rica vieram. E foram muito maiores que as possíveis condições de jogo do craque.

Ele vai jogar? Está 100%? Não é individualista demais? Precisava prender tanto a bola? Devia ter chamado tantas faltas? Pode jogar melhor? A ida para o PSG o atrapalhou? Está sentindo a pressão? Não se irrita demais com a arbitragem? Tem condições de liderar a Seleção? Tudo isso, dois jogos e meio depois de ficar três meses sem atuar.

Não espanta que em dado momento da partida de hoje, Neymar fosse apenas sombra do jogador que se tornou em praticamente 10 anos de carreira como profissional.

As dúvidas de todos parecem ter entrado na cabeça do camisa 10 Canarinho e o que se viu, durante a maior parte do jogo, foi Neymar sendo pouco Neymar; tentando não ser Neymar; não conseguindo ser Neymar. Sem a genialidade de Neymar, sem buscar o jogo como Neymar, sem buscar o gol como Neymar. No máximo, mancando como Neymar. Até quando chutou pela primeira vez ao gol de Navas no segundo tempo, o atacante parecia um arremedo de si próprio ao entortar o corpo e bater de pé esquerdo. Até que o gênio de Neymar parece ter buscado parte do gênio Neymar.

Sem conseguir ser o craque adorado, ele foi o 10 detestável. Brigou, reclamou, se jogou – na área. Cavou o pênalti que o juiz deu… E desdeu (VAR pro inferno!). Com todas as interrogações chovendo sobre sua cabeça, entrou no jogo como carro velho que pega no tranco. Quase fez um golaço. Levou cartão amarelo. Só os acréscimos abriram as porteiras em meio à muralha costarriquenha. O gol de Coutinho trouxe tranquilidade. Recuperou a autoestima de uma seleção que parecia fadada a morrer na praia, sufocada pela pressão por resultados mesmo depois de amassar o adversário ao longo de todo o jogo. Mas ainda restava algo a reconquistar.

O passe de Doulgas Costa, o toque para o gol vazio no último lance do jogo. A comemoração marrenta como disfarce para o que viria depois: o craque despido das vaidades, extravasando os questionamentos e expulsando pelas lacrimais as minhocas de sua cabeça. Em cada gota jorrada dos olhos do camisa 10, uma resposta para cada dúvida martelante sobre a sua figura nos últimos dias. Ainda virão outras, virão mais. Mas o quinto gol em Copas já coloca Neymar no patamar artilheiro de Zico e Romário nos Mundiais. O 56º tento anotado com a camisa da Seleção faz o atacante subir no pódio como terceiro maior goleador do Brasil na história. E, de tudo, o mais importante é que o gol contra a Costa Rica recupere a confiança de Neymar, e o choro, ainda no gramado, liberte o gênio enclausurado na capa de aço criada pelo garoto para blindá-lo de toda crítica e mal-olhado.

Se o hexa vem, é outra questão. Mas Neymar… Esse veio! Com brilho? Ainda não. Mas, com certeza, de corpo e alma.