Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O Foguetinho Willian

Willian decolou com grande atuação contra o México, ajudando o Brasil a chegar às quartas (Foto: Getty Images)

Nesta segunda-feira (2), o Brasil selou sua vaga para as quartas de final após vencer o México por 2 a 0, em Samara. Neymar participou dos dois gols brasileiros: fez um e deu o passe para o outro. Por isso, poderia ser facilmente o personagem de hoje. Foi craque, decidiu o jogo para a Seleção jogando mais perto do gol, mais lúcido do que nunca e, principalmente, com a concentração de um mestre de yoga para resistir aos pisões e botinadas que levou. Mas o dia na Copa mostrou para o mundo que, mesmo quando o resultado não surpreende, há surpresas no caminho. Quem esperava que o Japão fizesse 2 a 0 sobre a Bélgica? E, depois que fizeram, quem esperava que sofressem a virada? Em acontecendo a reviravolta, era de se imaginar que ela viesse de alguns dos melhores pés desse Mundial até aqui: Hazard, De Bruyne, Mertens, Lukaku… Mas vieram de Vertonghen e dos reservas Fellaini e Chadli os gols de uma vitória tão óbvia quanto surpreendente. Assim como um “Foguetinho” na terra dos foguetes russos.

Samara é a cidade-sede do Centro Aeroespacial Progress, que fabrica os foguetes russos, como aquele que levou Yuri Gagarin à órbita da Terra, em 1961. Talvez, por isso, Willian tenha se sentido, pela primeira vez na Copa, plenamente à vontade. Apelidado de “Foguetinho” por Tite, o meia brilhou na classificação brasileira exatamente por surpreender. E não só dentro de campo.

O jogador esteve abaixo de suas conhecidas capacidades nos três primeiros jogos da Seleção na Copa. Não jogou especialmente mal, mas viu seu posto em risco, sobretudo após ser substituído por Douglas Costa no intervalo da partida contra a Costa Rica. A lesão do companheiro e o crédito com Tite ajudaram a mantê-lo entre os 11 titulares apesar da cobrança externa por mudanças no time brasileiro. E foi dali que veio a primeira e mais fundamental surpresa de Willian.

Sentado em frente ao microfone na mesa de entrevistas coletivas, postado diante de algozes sedentos por minarem as forças do camisa 19 para verem suas preferências pessoais no gramado, dando vazão ao desejo de influenciar nos resultados da “pátria em calções e chuteiras”, o atacante da Seleção fez o que não se faz. Ora, Copa do Mundo é, antes de qualquer coisa, lutar pela honra, evitar a vergonha, proteger-se do vexame e do fracasso para, no mínimo, voltar para casa de queixo erguido e posar diante dos parentes, se não como herói, ao menos sem carregar no rosto a expressão do cachorro que caiu da mudança. Mas Willian fugiu do lugar comum e admitiu a debilidade aos carrascos. Afirmou que poderia melhorar. Deu a cara aos tapas de um país em vez de esquivar-se do estalar dos bofetes para que ninguém visse que estava apanhando. No entanto, o fez não com a fraqueza de quem sucumbe à pressão das críticas, mas com a força do alcoólatra que, ao assumir sua real condição, dá o primeiro passo para derrubar o vício.

Liberto de seus demônios interiores, confiante por saber o quão alto poderia ir, o Foguetinho decolou em Samara e voltou a surpreender, mas com a bola no pé e a velocidade com que dispara nos contra-ataques ou desmonta, com um toque, todo um sistema defensivo. Ao receber de Neymar, no início da segunda etapa, deu a lição do dia: fez o esperado, da maneira inesperada. Com a bola dominada na potente perna direita, iludiu dois mexicanos com um leve movimento e deixou-os para trás ao, em vez de conduzir a pelota para dentro e finalizar, levá-la em direção ao fundo do campo para o improvável cruzamento de pé canhoto. O passe para o gol de Neymar abriu os caminhos da vitória brasileira e da grande atuação de Willian, que, com rapidez e habilidade ainda criou outras tantas oportunidades que só não se transformaram em gol graças ao goleiro Ochoa.

O caminho ainda é longo, mesmo parecendo pequeno pelo número de jogos que faltam para atingir o ponto mais alto dessa trajetória: três. Mas o Foguetinho já decolou da base e mostrou que seu destino, ainda que conhecido, pode ser surpreendente.