Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O Furacão Kane

Artilheiro da Copa, Harry Kane não foi um Furacão daqueles que tudo destroem, mas deixa seu nome na história das Copas (Foto: Getty Images)

A melancolia da disputa de terceiro lugar de uma Copa do Mundo é, antes de mais nada, um lembrete. É ela quem, na véspera do ponto mais alto de um ciclo futebolístico de quatro anos, nos lembra da proximidade do fim e do novo início de uma longa espera. No caso do Bélgica e Inglaterra deste sábado (14), a partida era a possibilidade de um prêmio de consolação para uma geração que, com tamanho talento e finalmente bem treinada, talvez merecesse mais. Para o iraniano Alireza Faghani, árbitro do cotejo, em cada silvo do apito,  mais do que a lembrança do fim da Copa, ressoava uma sonata de adeus ao futebol. Aos 40 anos, o árbitro anunciou sua aposentadoria para quando o Mundial terminasse. Para um jogador, porém, o duelo – ainda que de segunda linha – significou a confirmação do feito mais importante da carreira.

Com seis gols marcados na competição, o inglês Harry Kane saiu do embate com Romelu Lukaku com a artilharia assegurada, mesmo sem balançar as redes no confronto. Aos 24 anos, escreve seu nome na história das Copas sem ter conseguido escrever uma grande história na Copa. Foram três pênaltis excepcionalmente bem batidos e convertidos – sem contar o da disputa de penalidades contra a Colômbia. Um gol marcado sem querer: um sutil desvio em seu calcanhar após o chute de um companheiro. E, em sete jogos, uma única atuação excepcional… Contra a Tunísia, na primeira fase. O que serviu para colocar a Inglaterra nas oitavas de final por antecipação. Mas os dois jogos de mata-mata em branco, no fim das contas, acabaram não sendo bastantes para levar o English Team a uma decisão de Copa após 52 anos.

Pouca coisa? Talvez para a capacidade destrutiva de um Furacão (Hurricane, em inglês) que anotou 41 gols em 48 jogos pelo Tottenham na temporada 2017/2018. Mas é difícil condenar um centroavante que, em sete jogos, contou pouco com a inspiração de seus companheiros do meio-campo, em especial o príncipe iorubá Dele Alli. E que tampouco se beneficiou de qualquer tabela com o perseguido Sterling. Antes dos 25 de idade, carregando a braçadeira de capitão dos criadores do jogo, Kane em nenhum momento se esconde. Sai da área, busca a bola. Tenta ser o 9, o 10 e, às vezes o 8, o 5, e até o 1 se preciso for.

Líder de uma geração que ganhou tudo na base, mas da qual nem se esperava tanto já em 2018, Kane volta para casa com o mérito de ter proporcionado chuvas torrenciais de cerveja pelas praças e pubs ingleses. Com seus gols, renovou os laços que unem sua seleção com um povo que andava cansado de ter sua torcida e esperança premiados com fracassos e tragédias.

Com apenas o quarto lugar, Harry Kane volta da Rússia sem ter sido um Furacão daqueles que deixam longos rastros de destruição pelo caminho. Mas a artilharia do Mundial traz impacto suficiente para se transformá-lo em um quadro nas paredes da Inglaterra e no rol de atletas que escreveram seu nome na história das Copas.