Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O heroísmo de Alisson

O começo não foi como se imaginava. Principalmente, depois do domínio inicial e do golaço de Phillipe Coutinho, aos 20 minutos de jogo. Por isso, o empate contra a Suíça, na estreia da Seleção na Copa, foi como se o brasileiro colocasse o chocolate no pulso e comesse o relógio: como se as coisas estivessem fora de lugar. E o que transformou a doçura da especialidade gastronômica de nossos rivais em gosto de metal retorcido foi o gol de Zuber, aos cinco minutos do segundo tempo.

Houve empurrão do jogador suíço sobre o zagueiro Miranda, sem que viesse o apito do árbitro César Ramos ou o alerta de Paolo Valeri que, da sua cabine de observação, com a responsabilidade de auxiliar o juiz em suas marcações, nada fez. Mas o VAR foi o personagem de ontem. E a verdade é que apenas um homem poderia ter solucionado a questão e ele não vestia azul, mas verde. Com a bola cruzada no centro da pequena área, Alisson esteve a dois passos um murro de aliviar o perigo. Mas ficou plantado sobre a linha de fundo, vendo Zuber cabecear de pertinho, à queima roupa.

O goleiro criado no Internacional nunca foi unanimidade. Mas conquistou Tite e a maior parte dos torcedores brasileiros com as grandes atuações que o tornaram destaque pela Roma, na última temporada europeia. Sinal de que teve de trabalhar muito a cada 90 minutos com a camisa do time italiano. Diferente da situação normal de uma seleção brasileira, onde a maior preocupação em relação ao arqueiro é o poder de se manter concentrado para agir, de modo preciso, quando instado. E isso acontece só uma, duas, talvez três vezes durante uma partida, como ocorreu neste domingo (17) contra a Suíça. Aos 26 anos, o galã do grupo é o mais jovem goleiro titular do Brasil em copas desde o atual treinador de goleiros da Seleção, Taffarel, em 1990. Pois na cobrança de escanteio do time europeu, Alisson emulou um dos principais defeitos de seu mestre: não saiu do gol e deixou o suíço empatar. E fez certo!

As redes sociais evidenciam a ansiedade e euforia. Neymar virou religião. O Canarinho Pistola virou febre. Tite, mais do que uma (incompreensível, até para ele) unanimidade, tornou-se um guru. E o hexa passou a ser questão de tempo. Os resultados conquistados desde que o novo treinador assumiu o lugar de Dunga, levando o escrete à classificação para lá de antecipada ao Mundial, empilhando vitórias e sofrendo pouquíssimos gols, transformaram o Brasil em grande candidato ao título mesmo depois do 7 a 1. O ego do torcedor brasileiro inchou de novo e, como se sabe, isso tem tudo para dar errado.

Basta olhar para as últimas Copas. O quadrado mágico de 2006 rolou ladeira abaixo graças à rotundidade de Ronaldo e Adriano e à bagunça na preparação. O time imbatível de Dunga, em 2010, teve morte cerebral decretada ainda em campo, contra a Holanda, após a expulsão de Felipe Melo e a incapacidade do treinador em sequer gastar as três alterações na tentativa de reverter o rumo da nau. Em 2014, Felipão foi convencido e convenceu o povo com a imponente vitória na Copa das Confederações e deu no que deu.

Em compensação, o próprio Felipão provou, em 2002, como o gosto da desconfiança funciona como os xaropes: amarga, mas faz bem. O complexo de vira-latas pré-58 e a troca de comando às vésperas da Copa de 1970 não permitiam ao torcedor um pingo de oba-oba. A seleção de 1994 conseguiu um resultado, e até um desempenho, tão surpreendentes para quem acompanhava o trabalho de Parreira e Zagallo desde o início, que, até hoje, é criticada por alguns, mesmo campeã.

Por isso, a falha de Alisson tem de ser louvada e apreciada como o sacrifício de um goleiro que deixou de lado seu trabalho de evitar gols para criar um necessário percalço e permitir uma correção de rumo. O resultado inesperado diante da Suíça é um teste de caráter pelo qual o time de Tite ainda não passou, mas que deve ser enfrentado para que se molde um grupo campeão mundial. E quando o hexa chegar, no dia 15 de julho, lembremos que tudo começou na inércia do nosso herói sobre a linha de fundo.