Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O milagre de Akinfeev

O mais exigente espectador poderá dizer que não foi um dia de grandes jogos. Mas foi um domingo (1) de jogos grandes e, nesse sentido, está vetado o pedido de bis pelo aficionado em Copa do Mundo. Foram mais de quatro horas de futebol en sua mais alta carga dramática: a de um jogo de mata-mata, terminado em pênaltis, na maior competição esportiva conhecida pela humanidade. Um dia para provar que não há favoritismo que se mantenha inquestionável perante a vontade de fazer história. A Croácia viu a sua superioridade teórica ruir em 120 minutos e caminhou ao abatedouro das penalidades com a mesma garantia de sobrevivência dos azarões dinamarqueses: nenhuma. Ainda assim, viu Subasic defender três cobranças e salvar o pescoço de uma das melhores equipes da primeira fase. Já a Espanha, caiu para os anfitriões, reforçando uma maldição de nunca vencer donos da casa em Mundiais. Mas a campeã do mundo em 2010 caiu não para um time, mas para um homem capaz de transformar chuva em lágrimas.

Igor Akinfeev chegou à Copa como uma das referências de um time ruim. Com toda a franqueza, era o que se sabia de uma Rússia eliminada na primeira fase da Copa das Confederações e que chegou à Copa do Mundo, em casa, vinda de uma longa sequência de jogos sem vencer. Mas o Mundial na Rússia tem, para o goleiro de 32 anos, um outro significado além do da reviravolta coletiva.

Quando esteve em Cuiabá, para a estreia na Copa de 2014, ele já era um grande nome daquela seleção que se acovardou frente à Coreia do Sul. Só que, aos 22 minutos do segundo tempo, um chute que veio direto para as suas mãos escorregou em suas luvas e encobriu-lhe a cabeça no maior frango do Mundial do Brasil. O empate conseguido depois, com gol de Kerzhakov, foi pouco para as pretensões russas de chegar às oitavas.

Por isso, cada defesa em casa – não só as de pênalti – é um momento de redenção para o arqueiro do CSKA. Mas o que Akinfeev fez hoje foi mais que isso. A resiliência – palavra da moda – do goleiro russo no comando de sua defesa, mesmo quando em desvantagem, durante os 120 minutos, fez com que a Rússia esgotasse psicologicamente uma Espanha, sempre considerada fria.

Nos pênaltis, a primeira defesa foi só o prenúncio do milagre. No melhor estilo São Victor do Horto, esticando a perna para defender a cobrança de Iago Aspas, Akinfeev fez o impossível: transformou os grossos pingos da forte chuva que caía do céu moscovita em finas lágrimas caídas dos olhos de companheiros e torcedores.

Trinta e oito anos depois, as arquibancadas onde chorou o ursinho Misha, no encerramento das Olimpíadas de 1980, derramavam o seu próprio pranto de alegria, júbilo e emoção.  Jogando pelos torcedores, a Rússia chegava à sua melhor campanha como Rússia, a um passo de igualar o melhor resultado da União Soviética. Graças a Akinfeev, o herói milagreiro que transformou a zebra russa em quadrifinalista da Copa em sua casa.