Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O torcedor brasileiro

Muito mais que de futebolistas, é de torcedores que se faz o “país do futebol” (Foto: Getty Images)

Foram pouco mais de duas horas torcendo. E era só o pré jogo. Foram duas horas esperando e rezando para que, se um goleiro frangasse como Muslera na eliminação uruguaia frente à França, que fosse o deles e não o nosso. Não foi nenhum. Talvez se Alisson estivesse um passinho mais pro meio do gol no chute de De Bruyne, desse pra pegar. Mas talvez, mesmo assim, não fosse o suficiente para o arqueiro brasileiro chegar à pelota muito bem chutada no canto. Paciência. A verdade é que, diferente das últimas vezes, o Brasil não perdeu. Foi vencido. Pela talentosa, promissora (e outros predicados mais) Geração Belga, que virou piada em 2014 e vai se tornando realidade – campeã, quem sabe?! – em 2018.

Igualzinho às outras vezes, porém, os olhos estarão voltados para o banco de reservas. Em 2006, caiu sobre os veteranos Parreira e Zagallo a culpa pela louca preparação em Weggis e pela rotundidade do mais redondo dos quadrados mágicos, que teve em Ronaldo e Adriano suas maiores esperanças – e as mais fora de forma. Em 2010, foi de Dunga a responsabilidade de um time extremamente reativo – no comportamento e no jogo – e que careceu de opções a ponto de, na eliminação contra a Holanda, o treinador sequer gastar todas as substituições. Recaiu sobre Felipão, em 2014, no Mineirão, o peso do maior vexame da história das Copas: o 7 a 1 alemão. Em 2018, dedos serão apontados a Tite pela insistência com Willian e Gabriel Jesus; pela não convocação de um jogador diferente como Luan, do Grêmio; pela manutenção da panela, como já apontado aqui após a vitória sobre a Sérvia.

Mas se olhará também para o campo. Jesus será o novo Fred: o centroavante equivalente a cone. Neymar talvez seja como David Luiz, o jogador-símbolo de mais uma trágica eliminação. Fernandinho, azarado que só ele – coitado! – será só Fernandinho, como há quatro anos. O ser humano é falho e o mundo, injusto. As bruxas serão caçadas ao estilo do velho ditado que não crê nelas, mas garante que elas existem.

Inventaremos piadas, mas elas passarão. Criaremos os memes, como é nossa especialidade, nos feeds e timelines por aí. Mas eles irão embora para serem lembrados somente uma ou outra vez no futuro. Baterá a raiva pela derrota, pela eliminação, pela falta da folga na terça-feira. Sobreviveremos. No final, ficará somente o nosso personagem de hoje: o torcedor brasileiro.

Aquele que rezou e torceu para que Courtois falhasse como Muslera e nos facilitasse o caminho. E que pegou a condução lotada, os bares lotados, o espaço lotado para acreditar e torcer para a Seleção em mais um Mundial. O que se decepcionou com o gol contra de Fernandinho; que reclamou de um por um dos jogadores que poderiam, mas não fizeram, a falta que mataria o contra-ataque puxado por Lukaku e concluído por De Bruyne; aquele que, com o corpo coberto em amarelo, vestiu a alma com o verde da esperança pela entrada e o gol de Renato Augusto; que lançou ao ar, em altos decibéis, todos os palavrões conhecidos nas finalizações do próprio Renato e de Neymar quando não balançaram as redes belgas. Foi ele que criou novas músicas para suplantar o já insuportável grito de “Eu sou brasileiro…”, que adotou um jovem russo como amuleto e que gritou “cerveja de milho” para provocar as produzidas pelo país da seleção que nos eliminou, fazendo a alegria do chatíssimo fiscal da cerveja alheia, só para não perder o chiste.

No entanto, o que resta, agora, para este vivente que sofre a dor pela garantia de um jejum de, no mínimo, 20 anos sem levantar a Taça do Mundo é juntar os cacos. De si e dos vidros quebrados na festa. É levantar a poeira: e dar a volta por cima, claro, mas também varrendo as sobras do churrasco com a galera. Porque a Copa acaba, a vida continua, o futebol continua, a Seleção continua. Seguiremos os únicos pentacampeões e teremos outras Copas pela frente.

E, independente do que aconteça, é o torcedor brasileiro quem vai, daqui a não mais de um ano, quando a bola rolar para o início da campanha nacional na Copa América, disputada aqui no Brasil, estar de novo ao lado da Seleção. Cobrando muito mais do que amando, é verdade. Mas torcendo de novo e outra vez. Porque, muito mais que de futebolistas, é de torcedores que se faz o “país do futebol”.