Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – O trabalho de Cissé

Depois de quatro derrotas no Mundial, a África finalmente venceu na Copa do Mundo. E o triunfo veio, justamente, pelos pés senegaleses. Cionek, contra, e Niang marcaram os gols da vitória sobre a Polônia, por 2 a 1, nesta terça (19), na Arena Spartak, em Moscou. Como diria Chico César, sobretudo hoje, “deve ser legal ser negão no Senegal”. Mas, será que deve ser legal ser negão na Rússia? Especificamente para um dos negros presentes nessa Copa do Mundo, pode até ser. Mas é missão extremamente solitária.

Aliou Cissé, senegalês que dirige a seleção de seu país, é o único treinador negro entre as 32 equipes que disputam o Mundial. Uma “realidade dolorosa e que incomoda”, segundo o próprio, e que só foi vivida por um técnico em uma das últimas quatro Copas. O que não chega a tornar o fenômeno de 2018 em uma exceção.

Em 2002 e 2014, só duas seleções eram dirigidas por negros: Arábia Saudita por Nasser Al-Johar e Nigéria por Festus Onigbinde, na Copa da Coreia e do Japão; Gana por James Kwesi Appiah e, novamente, a Nigéria, com Stephan Keshi, no Brasil, há quatro anos. Em 2010, mesmo com o maior evento esportivo do planeta disputado em continente africano, na África do Sul, a realidade foi ainda pior: não houve sequer um treinador negro entre as 32 agremiações. Já na Alemanha, em 2006, Luís Oliveira Gonçalves, de Angola, passou exatamente pela mesma situação de Cissé, agora, na Rússia.

O argumento tático foi o mais comum salvo conduto para deixar de lado os técnicos de pele escura mesmo nas seleções de países com grande densidade populacional negra, caso, principalmente, dos africanos. A ideia de que nigerianos, ganeses, senegaleses, sul-africanos, entre outros, praticam um futebol irresponsável e necessitam se curvar às amarras táticas de algum treinador europeu ou sul-americano caso desejem competir contra as postulantes de maior expressão em um Copa do Mundo é corrente nos últimos tempos. Pelo menos até hoje.

Porque do banco de reservas da Arena Spartak surgiu um fato novo. Aos 42 anos, Cissé não é só o único negro, como também o mais jovem treinador deste Mundial. Ex-volante de sucesso no futebol francês, era o capitão de um time que surpreendeu campeões e encantou o mundo na Copa de 2002. A vitória na estreia sobre a França, por 1 a 0, gol de Bouba Diop, e as grandes atuações de Diouf, Fadiga, Camara e do goleiro Tony Silva criaram a geração mais festejada do futebol do país e uma seleção que atingiu o melhor resultado de uma equipe africana em Copas: as quartas-de-final. Hoje, em vez da braçadeira, Cissé tem as decisões a tomar e uma filosofia que contraria as teses mais difundidas nas últimas décadas sobre treinadores africanos em Copas.

Ao sair vitorioso do duelo de hoje contra a Polônia – uma equipe que não é favorita, mas tem jogadores de renome e postura tática respeitável – Cissé fez questão de dar méritos não à individualidade de seus jogadores, mas à disciplina e espírito coletivo dos seus 11 atletas. A atuação de Senegal, porém, demonstra que o trabalho do ex-capitão vai além disso. O time liderado por Sadio Mané, do Liverpool, procura seu craque muito menos que a seleção de Tite faz com Neymar, por exemplo. Com a bola, troca passes, valoriza posse e busca o desequilíbrio com a troca rápida de lado das jogadas, quase sempre pelo chão. Sem ela, ainda tem dificuldades no jogo aéreo, como no gol de Krichowiak, mas se alinha e se fecha com rapidez na transição e apresenta marcação forte nos duelos.

Em uma Rússia onde uma das principais preocupações às vésperas da Copa era o comportamento racista dos torcedores, cujas ocorrências, segundo estudo das entidades que auxiliam Fifa e Uefa a monitorar os casos, aumentaram na última temporada, a vitória e boa atuação de Senegal sob comando de Cissé fizeram com que os africanos contassem com o apoio e a festa da maioria dos mais de 44 mil torcedores presentes ao jogo. Mais do que isso, lembraram que no futebol – e na vida – a cor da pele é o que menos importa (ou deveria importar). E que o maior de todos os tempos neste esporte marcava, há exatos 60 anos, seu primeiro gol em Copas do Mundo. E ele é negro. E brasileiro. Ainda assim, há apenas dois treinadores negros na primeira divisão no Brasil.