Gonçalo Luiz: Personagens da Copa – Pogba, o Rei-Sol

Paul Pogba é o astro-rei francês: a sua volta giram os demais astros da campeã do mundo (Foto: Getty Images)

Trinta e um dias depois, a Copa do Mundo conhece seu novo dono e esta coluna escolhe seu último personagem. A França é bicampeã mundial, goleando uma Croácia que pagou o duro preço de ter jogado uma partida inteira a mais que sua oponente final só com a soma das prorrogações disputadas. Na Copa dos gols contra, Mandzukic deixou o seu. Na Copa das bolas paradas, Perisic marcou após uma jogada ensaiada. Na Copa do VAR, Néstor Pitana apontou penalidade a favor da França. Na Copa dos pênaltis, Griezmann converteu. Na Copa dos imigrantes, a campeã é quase toda negra e Pogba é o destaque.

Antes do jogo mais importante de sua vida, o meio-campista do Manchester United foi flagrado pelas câmeras, ainda nos corredores de acesso ao campo, com o rosto coberto pelas duas mãos espalmadas. Como se pudesse esconder seu 1,91 metro com aquele gesto e evitar a pressão que lhe recaía sobre as costas aos 25 anos de idade. Eleito o melhor jogador jovem da Copa de 2014, no Brasil, e tendo sido capitão dos Bleus em todas as categorias de base, Paul Pogba chegou à Rússia impedido de falar com a imprensa, em virtude de seu jeitão marrento e explosivo, mas com a cobrança de, mesmo assim, liderar um time que precisa demais do setor de meio de campo.

Mais do que isso, a decisão deste domingo (15) no Luzhniki era a oportunidade de confirmação para um atleta que pisava em uma Copa do Mundo, não mais como promessa, mas como referência. Era a chance de dobrar a pressão e se tornar o que outros não se tornaram. No último mês, os melhores do mundo, que haviam conseguido atingir seus objetivos recentes com suas equipes nacionais, chegaram à Rússia cheios de expectativas. Cristiano Ronaldo, depois do título da Euro em 2016, tentava conduzir Portugal ao título. Messi, depois de levar a Argentina nas costas para o Mundial, precisava liderar os companheiros para uma missão ainda mais árdua. Ambos fracassaram e abandonaram a Copa ainda nas oitavas de final, sem sequer aparecer neste espaço.

Pogba ficou até o último dia do torneio. Termina a Copa sem brilhar nos números, mas reluzente em campo. Em um time muito bem dirigido por Deschamps – agora campeão como jogador e treinador – , onde as tarefas são tão bem divididas, Paul Pogba é o único que as acumula. Marca, desarma e dificulta os ataques adversários, tornando mais fácil a vida de Varane, Umtiti e Kanté. Organiza, distribui e cria as jogadas de ataque, com passes curtos e lançamentos longos que servem Griezmann, Giroud e Mbappé. Em meio aos brados de “Vivre la république”, o camisa 6 é monárquico como Luís XIV: o Rei-Sol. À sua volta orbitam os astros da campeã do mundo e, com sua luz, ele as ilumina.

Mas quando, de seu papel intelectual de leitor das entrelinhas oponentes, encontra o espaço para avançar, é como o verão. O astro rei desponta mais forte por entre as frestas e tudo queima com seu calor que ruboriza os mapas estatísticos. Por isso, o terceiro gol da França é prêmio para um meio-campista completo que foi capaz de confirmar as expectativas postas sobre ele. Mas também, uma mostra do que é o futebol de Pogba.

Ao ver a corrida de Mbappé pela direita e a oportunidade do contragolpe, bate na bola com a maestria dos gênios, dando-lhe o único efeito possível para que ela encontre o veloz atacante sem ser tocada por mais ninguém no caminho. Daí, surge a visão de radar que identifica a existência do espaço para se apresentar. Com passadas largas e mobilidade rara para um homem de quase dois metros, se desloca por sessenta metros com a velocidade de um raio e a sutileza de uma pluma. Mas, quando recebe o passe de Griezmann, suas pernas pesam a chumbo. Tanto a natural direita, como a treinada esquerda. Assim, marcou seu único gol na Copa. O mais importante da vitória francesa, por ter sido aquele que deu tranquilidade à equipe para lidar com uma Croácia que controlava a bola e pressionava a França depois de se ver atrás no marcador por 2 a 1.

Pela influência que tem no jogo a cada vez que pisa em campo, Paul Pogba é chamado de La Pioche – “A Escolha”. E essa influência é que o fez ser escolhido o último personagem da Copa.