Não sobrecarregue o Papai Noel: conheça os padroeiros dos clubes do Rio

O Natal envolve várias facetas do cristianismo. Embora o dia da celebração pagã anual em homenagem ao nascimento do Deus Sol tenha sido escolhido para comemorar o nascimento simbólico de Jesus Cristo e, assim, criar um elo com a população do Império Romano que estimulasse à conversão, a data também traz à tona São Nicolau, considerado o primeiro Papai Noel, e valores comuns ao esporte, como superação, lealdade e solidariedade. Neste fim de ano, se tivessem oportunidade, as torcidas de seis clubes do Rio de Janeiro pediriam ao bom velhinho, como presente, uma vaga nas fase final do Campeonato Carioca, que começa dia 16 de janeiro. Ciente dos apelos e, para não sobrecarregar o homem, ainda atarefado com a entrega dos presentes das crianças, o Livesporte.com decidiu dar uma mãozinha.

Como a primeira fase da competição começou dia 21 de dezembro e não há, até o Natal, tempo suficiente para apontar os classificados, produzimos um levantamento inédito para ajudar os torcedores de clubes da Série A do Campeonato Carioca e mostrar para eles quem são os santos padroeiros de seus clubes e os dias em que são celebrados, para que possam direcionar as orações e promessas na sequência da temporada. Título, permanência ou vagas em competições nacionais? Você escolhe, de acordo com a realidade apresentada pela tabela de classificação.

Na medida do possível, as justificativas para a escolha do padroeiro procuram explorar as contradições da fronteira, nem sempre clara, entre o sagrado e o profano, que permeiam a maior religião pagã de nossos tempo: o futebol, e seu contexto, em uma demonstração de que a vocação do esporte é para unir, celebrar e respeitar, independentemente de qualquer fé ou da ausência dela.

SÍMBOLOS DE UMA PAIXÃO

America – Na década de 1940, o cartunista argentino Lorenzo Molas, do Jornal dos Sports, escolheu o diabo como mascote do America em alusão às diabruras aprontadas pelo clube da Tijuca aos demais grandes do futebol carioca. A decisão teve um tom pessoal: esse era também o símbolo de seu time do coração, o Independiente, atual vencedor da Copa Sul-Americana. Em 2006, o treinador Jorginho, evangélico, tentou substituí-lo por uma águia, mas a mudança encontrou resistência na torcida e nunca foi homologada. Apesar do mascote endiabrado, o segundo clube de quase todos os cariocas tem também seus padroeiros: São Jorge e Nossa Senhora das Graças. Os americanos mais supersticiosos lembram que os dois tinham uma capela na sede social, demolida para a construção de uma quadra de futevôlei. Curiosamente, antes da mudança, o America jamais havia sido rebaixado para a Série B do Carioca, para onde caíram três vezes desde então. Datas: São Jorge, 23 abril; Nossa Senhora das Graças, 27 de novembro.

Bangu – A fundação do clube por ingleses que trabalhavam na Fábrica Bangu, berço do clube da Zona Oeste, explica também a escolha do homenageado. São Jorge é o padroeiro da Inglaterra: a cruz do santo guerreiro está presente até mesmo na bandeira do país. As cores da equipe, vermelho e branco, também foram escolhidas em sua homenagem. Em 2015, o Bangu adotou um terceiro uniforme azul, em alusão ao Southampton, time da cidade inglesa que abriga um porto de onde a diretoria defende que embarcaram aqueles que seriam os primeiros atletas e dirigentes da equipe, fundada em 1904. Curiosamente, o Bangu jamais venceu uma partida oficial com esse novo uniforme. Data: 23 de abril.

Boavista – Nossa Senhora de Nazaré é a padroeira do Verdão. Esse é um dos títulos atribuídos a Maria. Em 1630, um pescador viu uma forte luz em um morro repleto de pedras, onde encontrou uma imagem da mãe de Jesus. Ele levou a peça para casa, para protege-la mas, nos dias seguintes, ela desaparecia e era encontrada novamente no mesmo ponto do morro, onde foi erguida uma capela para a santa, que se tornou padroeira de Saquarema. A cidade realiza a terceira maior festa de Nossa Senhora de Nazaré do Brasil e o primeiro Círio de Nazaré do país. A homenagem não é uma prerrogativa do Boavista: é uma herança desde o tempo que o representante da cidade no futebol era o Esporte Clube Barreira. Data: 8 de setembro.

Bonsucesso – O nome do bairro leopoldinense é uma referência a uma capela erguida na localidade em homenagem a Nossa Senhora do Bom Sucesso no fim do século XIX, no alto da Rua Olga. Esse é um título recebido pela mãe de Jesus Cristo após uma aparição à madre Mariana Francisca de Jesús Torres y Berriochoa, em Quito, no Equador, em 1610. A escolha da padroeira é uma reverência do clube ao símbolo do bairro que o abriga, e do qual tomou o nome emprestado. Atualmente, Bonsucesso abriga duas paróquias da santa: a de Nossa Senhora de Bom Sucesso, e a de Nossa Senhora de Bom Sucesso de Inhaúma que, apesar do nome, fica no mesmo bairro.  Data: 2 de fevereiro.

Botafogo – A superstição e a fé são tão importantes para os alvinegros que estão no DNA atual do clube de General Severiano. O dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição foi escolhido para marcar a data da fusão entre os dois clubes que deram origem ao Botafogo contemporâneo: Clube de Regatas Botafogo e Botafogo Football Club. O estímulo final para a fusão foi um fato triste: a morte do jogador de basquete Albano, do Football Club, que sofrera um ataque cardíaco fulminante quando os dois clubes do bairro se enfrentavam pelo Carioca de Basquete. O nome deste título dado a Maria é uma alusão ao dogma católico que defende que a mãe de Jesus concebeu o filho sem pecado. Essa é uma das razões históricas da separação entre as igrejas Católica e Ortodoxa. Data: 8 de dezembro.

Flamengo –  Talvez devoção rubro-negra a São Judas Tadeu seja uma das mais famosas do esporte no país, mas as causas são pouco conhecidas. Em 1953, quando o clube da Gávea enfrentava um jejum de títulos, embora tivesse um time cheio de craques, o padre Góes, da paróquia do santo das causas impossíveis, localizada no Cosme Velho, realizou uma missa na sede do clube e pediu que os jogadores fossem até a igreja e acendessem velas para o santo, que o Flamengo voltaria a ser campeão, sobre o Fluminense. Foi o primeiro de uma sequência de três títulos. O fato gerou conflito entre o líder religioso e a torcida do tricolor que, na ocasião, apresentou ao Cardeal Jaime Câmara um pedido para que o pároco fosse afastado das funções por “envolver um santo em uma disputa esportiva”. Não deu em nada. Data: 28 de outubro.

Fluminense – O Tricolor das Laranjeiras foi o clube que, mais recentemente, anunciou uma novidade entre seus padroeiros. Em 2010, com a canonização de João Paulo II, o ex-papa polonês, que foi jogador de futebol, foi transformado em padroeiro do Fluminense, espaço que passou a dividir com Nossa Senhora da Glória. Em 1980, na primeira visita ao Brasil, o pontífice recebeu uma camisa oficial do tricolor. A partir de então, o cântico “Bênção, João de Deus” foi criado e se tornou um dos mais populares nas arquibancadas em dia de jogos do clube. Datas: Nossa Senhora da Glória, 15 de agosto; São João Paulo II, 22 de outubro.

Vibração com um gol contra, o primeiro do Goytacaz no retorno à Série A, na derrota por 3 a 1 para o Macaé | Carlos Grevi
Vibração com um gol contra, o primeiro do Goytacaz no retorno à Série A, na derrota por 3 a 1 para o Macaé | Carlos Grevi

Goytacaz – A torcida e o alvianil vivem uma relação de amor que sempre arrasta multidões aos jogos realizados na Rua do Gás, mas não é essa a justificativa para a escolha do santo casamenteiro como padroeiro do clube que tem a maior torcida de Campos. O primeiro estádio do Goytacaz ficava em frente a uma Igreja de Santo Antônio, no distrito de Guarus: essa é a origem da devoção. Não deixa de ser curioso o clube ter um padroeiro, uma vez que seu nome é uma alusão a uma das mais valentes tribos indígenas do país. Os índios goytacazes enfrentaram com bravura e destemor a ação dos colonizadores portugueses, em uma época em que igreja e estado estavam permanentemente associados.  Data: 13 de junho.

Macaé – São Judas Tadeu. O clube não encontrou uma justificativa para a escolha do santo das causas impossíveis. Data: 28 de outubro.

Madureira – Historicamente, o Madureira sempre prestou homenagens a São José, eternizado como seu padroeiro, devido à proximidade entre a sede do tricolor e a Igreja de São José Operário. Devoto de Nossa Senhora de Fátima, em 1993, quando tomou posse, o presidente Elias Duba elevou a santa ao patamar de padroeira, agora dividido com São José, e construiu para os dois uma capela na entrada da sede do clube, na Rua Conselheiro Galvão. Datas: São José, 19 de março; Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio.

Portuguesa – Nossa Senhora de Fátima é a padroeira do clube da Ilha do Governador: uma escolha que não poderia ser mais lusitana. Em 2017 se celebra o centenário das seis aparições de Nossa Senhora, relatadas por três pastorinhos, na Cova de Iria, na Vila de Fátima, em Portugal. Atualmente, o local abriga a Capelinha das Aparições, um dos maiores santuários marianos do mundo que, no Rio, tem uma réplica no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste. Na Ilha do Governador, a sede da Portuguesa abriga também uma capela para a padroeira. Data: 13 de maio.

Vasco – A reverência cruzmaltina a Nossa Senhora das Vitórias começou em 1923, quando os jogadores do time campeão carioca daquele ano recebeu das mãos de Carlito Rocha cordões com medalhas alusivas à santa. O complexo esportivo de São Januário abriga uma bela capela alusiva à padroeira, onde acontecem missas, casamentos e batizados.  A tradição portuguesa e o símbolo do clube, alusivo ao sofrimento de Cristo, fazem do Vasco um dos clubes mais cristãos do país. Por muitos anos, o clube considerou o dia da padroeira um feriado e não realizava atividades esportivas: o time profissional costumava receber folga na ocasião. Data: 18 de outubro.

Outros: Cabofriense, Resende, Nova Iguaçu e Volta Redonda não têm padroeiros. Seus torcedores podem fazer seus pedidos 1º de novembro, Dia de Todos os Santos. A data foi fixada pelo papa Gregório II, que teve seu pontificado no século XVIII e ergueu uma capela em homenagem a Todos os Santos nesta data. Acredita-se que a ocasião tenha sido escolhida pela existência de um feriado de perfil semelhante naquele tempo na Inglaterra. Como são quatro clubes de cidades diferentes que, em seu nome, levam a bandeira do local de origem, outra opção é reverenciar os padroeiros locais. Nova Iguaçu e Volta Redonda têm o mesmo padroeiro: Santo Antônio, celebrado em 13 de junho. Nossa Senhora da Imaculada Conceição, lembrada dia 8 de dezembro, é identificada com Resende, enquanto Nossa Senhora da Assunção é homenageada em 15 de agosto.