O haitiano Duce Elisson saudado pelo técnico Rafael Novaes antes de um jogo dos Pérolas Negras | Divulgação

Pérolas Negras enfrentam dificuldades com visto para contar com mais haitianos

O haitiano Duce Elisson saudado pelo técnico Rafael Novaes antes de um jogo dos Pérolas Negras | Divulgação
O haitiano Duce Elison saudado pelo técnico Rafael Novaes antes de um jogo dos Pérolas Negras | Divulgação

Autorização para entrada no Brasil pode demorar até 4 meses

Líder do grupo A com 34 pontos obtidos em 14 partidas, o Pérolas Negras caminha a passos largos para o acesso à Série B2, em seu ano de estreia no futebol profissional. Mas, em Paty do Alferes, o clima não é apenas de realização. O clube, uma iniciativa do Viva Rio criada para oferecer oportunidades profissionais a jovens brasileiros e haitianos, tem enfrentado dificuldades para driblar a burocracia estatal e trazer mais atletas caribenhos para o país. O plano original era que o elenco fosse formado com a metade de jogadores de cada nacionalidade, mas o problemas tem provocado predominância de brasileiros na equipe.

Atualmente, haitianos são 40% do elenco. Mas essa proporção não se reflete nas escalações, nas quais apenas dois jogadores costumam começar jogando: os laterais Duce Elison e Destine Simson, que têm sido elogiados pela crítica na competição. O treinador Rafael Novaes explica que o clube tem encontrado grande dificuldade para trazer os atletas formados pela Academia Pérolas Negra do Haiti, em Porto Príncipe, por causa dos trâmites necessários para obtenção de visto.

— Atualmente, a espera demora cerca de quatro meses, porque há uma quota, um limite para refugiados. Então, mesmo tendo local para ficar, espaço para estudar e trabalho assegurado, eles precisam ficar nessa mesma lista de espera. Isto foi algo que atrapalhou nossos planos e prejudicou a equipe, porque algumas liberações só aconteceram depois de expirado o prazo para inscrição de atletas para a competição. Mas esse está sendo um ano de grande aprendizado para a gente. Precisamos resolver isto, até mesmo com relação aos menores de idade, um trâmite mais delicado, mas precisaremos trazê-los para os times de base  — explica.

Em campo, a campanha dos Pérolas Negras tem feito os veteranos comerem poeira. Seus 31 pontos são mais do que a soma dos obtidos por Campo Grande e Itaperuna, que estão na mesma chave e têm participações históricas na Série A. Caso confirme o primeiro lugar do grupo no fim da fase classificatória, que está a três rodadas do fim a equipe estará classificada para a Série B2. O acesso pode chegar com uma rodada de antecedência, em caso de tropeço do 7 de Abril diante do União de Marechal, já que os pérolas vencerão o Heliópolis, que abandonou a competição, por WO.

Fora dos gramados, a equipe também tem obtido importantes vitórias políticas. Depois de a Ferj passar a considerar atletas refugiados como se fossem nacionais, sem prejuízo da cota de cinco estrangeiros por time em campo em cada partida, no fim do ano passado foi a vez de a CBF adotar a medida em âmbito nacional. Em breve, o assunto deve ser apreciado pela Fifa.

BOM DESEMPENHO TAMBÉM NA BASE 

Mesmo com as dificuldades burocráticas, o projeto deve ganhar mais força para os próximos anos, com refugiados de outras partes do mundo. Presidente do Viva Rio, Rubem César Fernandes está na Jordânia, onde tenta parcerias para montar um núcleo do projeto próximo ao campo de refugiados de Zaatari, o maior do país, com grande concentração de sírios. Quando os atletas chegarem à fase avançada do processo de formação, serão levados para Paty do Alferes, onde a instituição pretende transformar o atual CT em um Centro Mundial de Refugiados.

Mesmo com a chegada das populações de maior predominância do campo de Zaatari, o dirigente garante que o clube não deve mudar de nome.

— Realmente a denominação Pérolas Negras surgiu com um forte componente étnico, mas não se limita a isto. São pérolas muito raras, difíceis de encontrar e extremamente valiosas. Essa é nossa visão sobre as pessoas no aspecto humanitário do projeto — conclui Fernandes.

O time sub-20 do Pérolas Negras também tem feito bonito. A equipe está nas semifinais da Série C da categoria e venceu o 7 de Abril por 3 a 1 no jogo de ida, na casa do adversário. Nesta quinta-feira, em Paty do Alferes, acontece a partida de volta. Com a vantagem construída no primeiro confronto, o time, que conta com seis haitianos entre os titulares, pode perder por até um gol de diferença que estará classificado para a decisão, contra o vencedor do confronto entre Itaperuna e Itaboraí Profute. No primeiro duelo, igualdade em um gol.