Gedeil recebe instruções do técnico Leandro Melino, no Casimiro de Abreu Esporte Clube | Divulgação

Secretário de Esporte em Casimiro, Gedeil se divide entre o futebol e a política

Gedeil recebe instruções do técnico Leandro Melino, no Casimiro de Abreu Esporte Clube | Divulgação
Gedeil recebe instruções do técnico Leandro Melino, no Casimiro de Abreu Esporte Clube | Divulgação

Dupla função em Casimiro de Abreu não o deixa treinar com elenco 

Os seis gols que fazem de Gedeil o artilheiro do modesto Casimiro de Abreu Esporte Clube (Caec) na Série C do Campeonato Carioca não iludem o volante. Os 33 anos fariam dele um jogador experiente em qualquer clube, mas parecem uma estrada particularmente mais longa para seus jovens colegas de elenco, majoritariamente formado por atletas sub-23. Atuar no time da cidade onde nasceu é uma responsabilidade ainda maior: espelho para as promessas, o destaque do clube da Terra do Poeta atualmente se divide entre duas funções. Nos dias de semana, ele troca o uniforme esportivo pelo social para dar expediente como secretário municipal de Esporte e Lazer.

A atividade consome o camisa cinco, que não costuma treinar com o elenco. O encontro com os companheiros só acontece quando há coletivos realizados finais de semana e em jogos. O jogador, que chegou a anunciar aposentadoria em maio, após o fim do contrato com o Macaé, garante estar feliz com o momento que vive.

— Por quatro meses lutei contra um problema no púbis, fazia tratamento, mas não melhorava. Quando venceu a eleição aqui, o prefeito Paulo Dames (PSB) me fez o convite e eu decidi ver de perto como seria essa experiência. Quando eu já estava aqui, o Caec montou esse time e me convidou para jogar. Eu disse que não teria condições de treinar porque, durante a semana, tenho compromissos com horário na secretaria, e eles aceitaram — explica.

Atacante do Caec, Felipe ao lado do tio Gedeil, em um encontro de gerações | Arquivo Pessoal
Atacante Felipe ao lado do tio Gedeil: encontro de gerações | Arquivo Pessoal

Depois do expediente, Gedeil faz trabalhos físicos separado do elenco. Contra o Campo Grande, no último dia nove, veio a melhor atuação: com dois gols, ajudou a equipe a vencer por 3 a 1. Com 31 pontos conquistados em 13 jogos, a equipe está invicta e ocupa a segunda posição do grupo B, atrás apenas do Campos, e está muito próxima de conquistar, no mínimo, uma vaga na repescagem de acesso à Série B1. Embora a função ocupada pelo volante no município pudesse proporcionar facilidades ao Caec, Gedeil garante que a prefeitura não oferece ajuda financeira ao tricolor, como já houve no passado, e descarta ser candidato a um cargo eletivo.

— Infelizmente o momento econômico do país é muito ruim, e isto é ainda mais grave no Rio. Gostaria de poder ajudar ainda mais o Caec, mas a cidade não tem condições de fazer isto. Então, faço o que posso, que é jogar. E temos sido muito correspondidos, porque a torcida tem comparecido em peso para nos apoiar e faz uma festa muito bonita. Me dá muita alegria ver isto. A experiência na secretaria tem sido difícil. Tenho vontade de fazer muitas coisas, mas não há recursos para tudo. Não penso em ser político. Hoje, o que eu gostaria é de poder dar oportunidades para que as crianças possam continuar a sonhar — afirma o jogador.

No Estádio Ubirajara Reis, Gedeil está em casa. Além de conhecer bem o campo onde atuou em 2007, quando foi emprestado pelo Friburguense ao Caec, o volante vive um encontro com a família a cada atividade. Isto porque também fazem parte do elenco dois sobrinhos seus: o volante Antônio e o atacante Felipe.

Na oitava rodada, tio e sobrinho foram protagonistas na vitória por 2 a 1, fora de casa, sobre o Miguel Couto. A equipe de Nova Iguaçu saiu na frente mas, com um gol de Felipe e outro de Gedeil, o Caec virou a partida e garantiu mais três pontos. Um sonho do qual o atacante, de apenas 18 anos, parece ainda não ter despertado.

— Fiquei por alguns instantes sem acreditar no que tinha acontecido. Desde criança eu via meu tio jogar e acompanhava os jogos dele pela televisão. Procuro sempre me espelhar nele, mas nem mesmo em meus sonhos eu era capaz de imaginar que isto poderia acontecer — revela.

O MACAÉ MARCOU MAIS QUE O BOTAFOGO

Em 2014, quando o Macaé recebeu da prefeitura a administração do Moacyrzão, o prefeito fez a entrega simbólica da chave do estádio para Gedeil
Em 2014, quando o Macaé recebeu da prefeitura a administração do Moacyrzão, o prefeito fez a entrega simbólica da chave do estádio para Gedeil | Tiago Ferreira/Arquivo

O técnico Leandro Melino é um entusiasta da presença de Gedeil no elenco, e entende que o fato aumenta a autoestima do torcedor em um momento importante: o Caec não disputava uma competição oficial desde 2007, quando foi rebaixado para a Terceira Divisão que, na época, era a última do futebol carioca. A Série C, na qual a equipe joga atualmente, é equivalente à quarta.

— A presença de um jogador conhecido, que já atuou por clubes grandes, sempre impõe respeito. Gedeil é muito comprometido e, apesar de não ter muito tempo, faz o que pode. Treina duro e tem mostrado resultado, é uma peça muito importante para o nosso elenco e seu desempenho supera todas as expectativas que tínhamos quando o convidamos — afirma o treinador.

Capitão do título da Série C ganhou caricatura no Moacyrzão | Acervo Pessoal
Capitão do título da Série C ganhou caricatura no Moacyrzão | Acervo Pessoal

Embora já tenha atuado pelo Caec, Gedeil não surgiu no time da cidade. Ele se projetou no Friburguense, de onde foi por empréstimo para o Botafogo em 2003. Embora essa tenha sido sua única passagem por um clube grande, a camisa que mais o marcou foi a azul e branca do Macaé Esporte, onde passou oito temporadas. Tempo suficiente para se tornar capitão, ídolo e recordistas de partidas, com 264 jogos.

— Tive muitas emoções no Macaé. A campanha do acesso à Série B foi inesquecível, até porque sofri muito antes dela. Nos três anos anteriores nós chegamos às quartas-de-final e fomos eliminados sem o acesso. Chegamos à Série B eliminando o Fortaleza no Castelão, diante de mais de 60 mil pessoas. Tenho muito carinho pelo Macaé, assim como o Friburguense — explica o capitão que, no fim da competição, levantou o troféu da Série C.

A passagem pelo Glorioso. em 2003, quando ajudou o clube a superar a Série B e retornar à elite do futebol brasileiro, não está nem mesmo entre os grandes momentos que Gedeil lista sobre a própria carreira. Mais maduro, o estudante de Educação Física, que pretende continuar no esporte depois que pendurar as chuteiras, faz uma autocrítica sobre aquele momento.

— Foi importante para mim, mas tudo aconteceu quando eu ainda era muito jovem. Infelizmente, àquela altura, eu ainda não levava a carreira tão a sério, mas isto mudou muito desde então. Quando me aposentar, e ainda não sei quando isto vai acontecer, continuarei a trabalhar com o esporte, mas ainda não sei exatamente o que farei — explica.

Enquanto o adeus não chega, a população de Casimiro de Abreu pode acompanhar de perto a técnica do veterano, que sonha conduzir o time da cidade à Série B2. O próximo desafio do Caec acontece dia 28 (sábado), quando enfrenta o Teresópolis. A partida acontece às 15h, no Estádio Atílio Marotti, na vizinha Petrópolis.